O turismo é um pilar fundamental da economia portuguesa, e o impacto das intempéries está gerando preocupações na indústria, levando a pedidos por apoios específicos. Nas regiões mais atingidas, além dos danos materiais nas infraestruturas, há registros de cancelamentos e adiamentos de reservas. Com o Carnaval já considerado perdido, as empresas agora tentam garantir a Páscoa.
“É difícil prever as consequências atuais, especialmente considerando que estamos numa fase de baixa temporada, mas prevejo que, para a Páscoa, possamos enfrentar alguns cancelamentos. No entanto, tenho esperança de que a situação se resolva rapidamente. As estimativas, inclusive do próprio Governo, já indicam prejuízos de cinco mil milhões, o que é dramático para a economia nacional“, afirmou Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal, em entrevista ao ECO.
À margem do Congresso Nacional de Hotelaria e Turismo, Francisco Calheiros destacou que a confederação está em contato direto com as regiões e associações de empresários do setor. “Visitei Leiria logo no primeiro fim de semana após o temporal e, de fato, a situação é alarmante. Famílias e restaurantes foram severamente atingidos, e há grandes problemas nas hotelarias devido a infiltrações. Embora ainda seja cedo para um balanço, é certo que a situação é muito ruim”, destacou.
“Houve alguns cancelamentos para a Páscoa, mas nada muito significativo”, disse, reconhecendo que “pode haver algum impacto no turismo internacional também”. “Meu desejo é que isso se resolva rápido para que possamos virar essa página”, enfatizou.
Ainda é muito cedo para fazer um balanço, mas é certo que o resultado é bastante ruim.
Bernardo Trindade, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), mencionou que está realizando um levantamento com os associados para entender o impacto do temporal nas operações. “Estamos trabalhando nesse sentido. Ainda não acabou“, comentou ao ECO, mesmo reconhecendo que haverá “algum impacto” nas atividades.
Diante dos desafios, o dirigente da AHP elogiou a iniciativa “Turismo acolhe”, que visa proporcionar alojamento de emergência para famílias afetadas pelas tempestades. Até quarta-feira às 18 horas, o programa contava com 40 adesões, principalmente na região central.
“Convocamos nossos empresários a participar voluntariamente, oferecendo suas capacidades de alojamento, que são essenciais neste momento, mas também visam preparar o futuro, especialmente em termos de reconstrução”, afirmou. Para isso, foi estabelecida uma tarifa de “cerca de 60 euros”.
Em 2024, a atividade turística contribuiu com 34 mil milhões de euros para o PIB, correspondendo a 11,9%, e refletindo um aumento de 0,3 pontos percentuais para o crescimento real do PIB em 2024 (1,9%), segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Conforme levantamento da TravelBI, ligado ao Turismo de Portugal, no Centro foram registradas mais de cinco milhões de dormidas e quase três milhões de hóspedes, enquanto no Oeste e Vale do Tejo foram 3,5 milhões de dormidas (com 1,9 milhões de hóspedes) – ambas regiões fortemente afetadas pelas últimas depressões.
“O Carnaval, especialmente na região Centro e no norte de Alentejo, está perdido”, alertou Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional das Agências de Viagens (ANAV), em declarações ao ECO, mencionando cancelamentos em localidades conhecidas por suas festividades, como Torres Vedras.
Não tenho dúvidas de que apoios específicos são essenciais. O turismo é fundamental para o Produto Interno Bruto (PIB) e deve ser tratado com prioridade.
Ainda assim, ele ressaltou que a maioria das reservas nessa época é de turistas residentes, o que pode resultar em um impacto menor. A Páscoa, por outro lado, costuma atrair turistas não residentes, principalmente para o Algarve, menos afetado pelas intempéries.
“É vital que o Governo disponibilize recursos para famílias e empresas, garantindo uma rápida recuperação“, pediu, indicando que, durante o pico do mau tempo, “até 50% das unidades turísticas na região Centro tiveram que fechar, e 80% foram afetadas”.
“Algumas vão demorar a recuperar, outras precisarão investir, e todo o setor que depende do turismo, como restaurantes e comércio, está sendo impactado”, alertou.
No Centro, em 2024, as dormidas de residentes representaram 68% do total na região, enquanto no Alentejo foi de 66,3%, na Península de Setúbal 62,9% e no Oeste e Vale do Tejo 50,8%. Em outras regiões, houve maior dependência de turistas não residentes, especialmente na Madeira (85,3%), Grande Lisboa (81,6%) e Algarve (75,8%), segundo o INE.
A Espanha se destacou como o principal mercado externo em cinco regiões, especialmente no Centro (24,5%), Oeste e Vale do Tejo (24,0%), Península de Setúbal (18,4%), Norte (18,0%) e Alentejo (16%).
O Centro registrou mais de cinco milhões de dormidas e Oeste e Vale do Tejo 3,5 milhões, em 2024.
Na região de Leiria, os prejuízos são contabilizados. Ao ECO, Pedro Paixão, diretor do Monte Real – Hotel, Termas e SPA, relatou que as intensas intempéries causaram danos materiais, especialmente nas infraestruturas e áreas adjacentes.
“Foi necessário fechar o hotel por dez dias, devido à falta de segurança para funcionários e hóspedes“, disse o responsável pelo estabelecimento.
Pedro Paixão enfatizou que “felizmente, o hotel já reabriu normalmente, exceto pelo SPA, que permanece temporariamente fechado, assim como a mata e as infraestruturas esportivas, que estão fora de operação” e “já estamos recebendo reservas para os próximos dias.”
Por isso, “como era de se esperar”, o temporal “também impactou algumas reservas de fevereiro, tanto de clientes particulares quanto empresariais”, embora as novidades sobre a Páscoa sejam mais otimistas. “As reservas para a Páscoa continuam inalteradas. Os clientes estão retornando e fazendo novas marcações, o que traz esperança de que a normalidade será restabelecida“, comentou.
De maneira semelhante, o diretor-geral do Hotel Villa Batalha, Tiago Piedade Gomes, relatou que a intempérie “afetou um pouco” a unidade. “Registramos danos, especialmente nas coberturas e painéis solares, mas sem comprometer a estrutura do hotel“, explicou, acrescentando que, assim, conseguiram acomodar “várias pessoas que perderam suas casas, cumprindo um papel de apoio” durante o pico do mau tempo.
Tiago Piedade Gomes destacou que ocorreram mudanças nas datas das reservas e cancelamentos, especialmente entre grupos devido à suspensão de eventos. Segundo ele, a unidade enfrentou uma queda de aproximadamente 50% nas reservas para o Dia de São Valentim e “vários cancelamentos” para o Carnaval.
Em relação à Páscoa, “ainda não há procura nesta fase”. Apesar de ressaltar que “ainda é difícil avaliar o impacto” das tempestades no turismo da região, admite que o hotel terá “mudanças nas projeções”.
Da mesma forma, Pedro Paixão comentou que “como se poderia esperar, o temporal afetou algumas reservas para fevereiro, de clientes particulares e empresariais”. No entanto, “as reservas para a Páscoa permanecem inalteradas” e “os clientes estão retornando e reagendando suas estadias, o que traz esperança de uma recuperação gradual à normalidade.”
Francisco Calheiros demonstrou otimismo. “Dizem que o tempo vai melhorar neste fim de semana. O Carnaval é muito celebrado pelos portugueses e todos estão ansiosos por sair de casa – acredito que falo por todos nós –, um pouco de sol ou, pelo menos, a ausência de chuva… se São Pedro nos ajudar, ainda teremos um grande Carnaval”, considerou.
A Associação de Comércio, Indústria, Serviços e Turismo da Região de Leiria (Acilis) revelou que o impacto da depressão Kristin é considerável para os associados, e expressou ceticismo quanto à abrangência dos apoios diretos.
“O impacto foi significativo, com danos materiais em diversas estruturas, incluindo telhados, coberturas, painéis solares, esplanadas, infraestruturas internas, equipamentos de refrigeração, sistemas de alarme e câmaras de segurança, veículos afetos à atividade, vitrines e portas, bem como pisos e interiores dos estabelecimentos,” afirmou Lino Ferreira, presidente da Acilis, à agência Lusa, acrescentando que também foram registrados danos em mercadorias.
A Associação Empresarial da Região de Coimbra enfatizou que diversas atividades econômicas foram prejudicadas pelo tempo, resultando em impactos severos, incluindo o turismo. “As dificuldades não se restringem apenas à interrupção direta das atividades, mas também aos danos nas infraestruturas, acessos bloqueados e à consequente paralisação econômica, resultando em grandes prejuízos por lucros cessantes,” indicou em comunicado, solicitando uma intervenção rápida.
Francisco Calheiros afirma que, “primeiro, é preciso parar, depois, como em tempos de guerra, não limpar, mas ajudar as populações, ajudar as famílias”. Para o presidente da Confederação do Turismo, “o Governo foi ágil nas medidas que tomou”.
No entanto, Pedro Paixão, diretor do Monte Real – Hotel, Termas e SPA, acredita que, diante da severidade do impacto das recentes tempestades, “os apoios genéricos oferecidos pelo Governo são, à primeira vista, insuficientes para uma recuperação completa e rápida do setor do turismo.”
“Dada a sua importância estratégica, principalmente em regiões como Leiria, é crucial um pacote de medidas específicas com uma abordagem dupla,” afirmou em declaração ao ECO. Por um lado, medidas de “apoio imediato para assegurar a sobrevivência financeira das empresas e a proteção dos empregos”, e, por outro lado, “medidas de apoio estratégico para revitalizar a região como destino turístico, modernizar a oferta e recuperar a confiança do mercado”, sugeriu.
Os apoios genéricos oferecidos pelo Governo são, à primeira vista, insuficientes para a recuperação plena e rápida do setor do turismo.
“Não tenho a menor dúvida de que apoios específicos são essenciais. O turismo desempenha um papel significativo no Produto Interno Bruto (PIB). É um setor que atrai muitos visitantes a partir de março e abril e é vital para a economia, devendo ser tratado com toda a prioridade“, argumentou Miguel Quintas, presidente da ANAV.
Há também pedidos por apoios a fundo perdido. “É preciso que as respostas sejam rápidas e não se limitem a linhas de crédito,” assegurou à agência Lusa o presidente da Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo e Ribatejo, José Santos.
No concelho de Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal, o mau tempo “afetou praticamente toda a restauração”, juntamente com “alguns alojamentos locais, incluindo um hotel, ainda que não estivesse em funcionamento.”
“Mas também recebemos relatos de danos em infraestruturas turísticas privadas em outros concelhos da nossa área de atuação, como Coruche, Salvaterra de Magos [distrito de Santarém] e Gavião [distrito de Portalegre], além de danos em infraestruturas públicas de apoio ao turismo em Mértola e Odemira [distrito de Beja]”, acrescentou.
Por outro lado, o diretor-geral do Hotel Villa Batalha, Tiago Piedade Gomes, pediu que o tema seja “acompanhado de perto pelas autoridades” para “entender o impacto” do mau tempo. “O importante é que as respostas dadas tenham um caráter duradouro e não sejam pontuais. Devem ser implementadas numa lógica de longo prazo,” apelou.
