Inspirada nas obras “As Troianas” e “Hécuba” de Eurípedes, a peça aborda a angústia que cada indivíduo vivencia atualmente diante das tragédias que afligem a humanidade, conectando as questões levantadas pelo dramaturgo grego há mais de dois mil anos à realidade contemporânea. O encenador Marco António Rodrigues destaca que a obra busca “compreender a relevância da questão de Eurípedes”, um pacifista que se opôs à formação do Estado grego como se dava, por meio da colonização.
A peça sugere que a tragédia “não é um fardo ou um destino”, enfatizando a possibilidade do indivíduo “reexistir”, reconstruir um novo mundo e cultivar algo que atualmente não existe: a utopia. O encenador também menciona influências de narrativas contemporâneas, incluindo relatos de palestinianos e indígenas brasileiros, que, embora não estejam presentes na peça, constituem a base criativa. A figura de Zarifa Ghafari, ativista e antiga presidente camarária de uma província afegã, é uma representação evidente no espetáculo.
Isabel Craveiro, diretora artística do Teatrão, afirma que o trabalho lida com a angústia, ressaltando que essa dimensão “calibra muito as questões” que os artistas investigam. A também intérprete da peça recorda os três períodos de residência em diferentes locais do país, onde foram conduzidos alguns estudos que ajudaram a formar o resultado apresentado ao público.
“Dói-me o corpo de jazer nessa esperança” estreia na Oficina Municipal do Teatro e ficará em cartaz até 23 de novembro, seguindo depois para o palco do auditório Municipal António Silva, em Agualva-Cacém, de 27 de novembro a 6 de dezembro. O espetáculo, que tem uma duração aproximada de 90 minutos, contará com sessões em Língua Gestual Portuguesa (LGP) nos dias 13 e 21 de novembro, além de audiodescrição nos dias 19 e 23.
Além da nova criação, um conjunto de atividades paralelas está sendo desenvolvido em torno da temática do espetáculo. No dia 31 de outubro, a Oficina Municipal do Teatro recebeu a conversa “Neoliberalismo, e agora?”, com João Rodrigues, professor auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, moderada por André Barata, filósofo e professor na Universidade da Beira Interior.
No dia 13 de novembro, na Casa das Artes Bissaya Barreto, será apresentada a trilha sonora original do espetáculo, e no dia seguinte está programada uma sessão de cinema com “O Quadrado”, de Ruben Östlund.
LUSA / CM de Coimbra
