O cineasta Ali Asgari, prestes a lançar seu mais recente filme em Portugal, expressou à Lusa seu desejo de que o povo do Irão encontre paz e felicidade, afirmando que abriria mão do cinema se isso significasse uma troca.
O filme “Divina Comédia”, que estreou em Veneza no ano passado e chega às salas portuguesas na quinta-feira pela Nitrato Filmes, aborda, de forma satírica, a história de um realizador cujo filme é proibido pelas autoridades iranianas, que tenta projetá-lo clandestinamente em Teerão.
Em entrevista à Lusa, antes do início da 3.ª edição do Festival Internacional de Cinema da Maia, que acontece de quarta a sábado no distrito do Porto, onde Asgari será um dos destaques, o cineasta revelou que não solicita permissão para filmar, já que acredita que “é muito importante ter liberdade de expressão” e contar a história que considera mais relevante.
No cinema de Asgari, a cidade natal dele, Teerão, é uma personagem por si só, com seus 15 milhões de habitantes, suas ruas, lojas e uma desigualdade crescente entre ricos e pobres.
“A cidade está repleta de diferentes histórias, de pessoas com culturas diversas. Essas histórias se cruzam. Durante anos, os filmes do Irão se concentravam em aldeias e pequenos locais. Decidi filmar em Teerão, pois nasci e cresci lá”, explicou.
Sobre o impacto da guerra, o cineasta — que já teve o passaporte retido por meses — observou que os milhares de mortos nos protestos de janeiro geraram ainda mais repercussões do que o conflito provocado pelos Estados Unidos e Israel sobre a sociedade iraniana, “porque o povo sofreu muito, há muita depressão, muita tristeza, e isso afetou a vida de todos no Irão”.
“Acredito que os cineastas, mais do que antes, estão buscando novas maneiras de fazer cinema. Não é fácil testemunhar uma tragédia e continuar a produzir como antes”, disse Ali Asgari.
Quando questionado se o conflito, que provocou uma reação do Irão em relação aos seus vizinhos regionais, poderia dificultar a divulgação de seu trabalho no exterior, o cineasta expressou confiança de que isso não ocorrerá. “O que fazemos é falar sobre a verdade. […] A verdade é algo que as pessoas desejam ouvir. No entanto, o mais importante agora não é se preocupar com quem é mais afetado ou não”, comentou o realizador de “Versos Terrenos”.
Para Asgari, “acima de tudo, o essencial é que o povo do Irão encontre paz e felicidade”.
Ele mencionou que preferiria não fazer filmes pelo resto da vida se isso significasse que sua família, sua mãe e seu povo pudessem ter uma “vida tranquila, em paz e feliz”.
Com diversos prêmios internacionais em seu currículo, incluindo o festival de curtas-metragens de Évora FIKÉ em 2013 e várias indicações em festivais como os Curtas de Vila do Conde, o trabalho de Asgari foi exibido em importantes festivais ao redor do mundo, de Berlim a Cannes, onde ele retornará em maio como jurado na competição de curtas-metragens e na seção La Cinef, dedicada a cineastas emergentes.
De acordo com a Nitrato, “Divina Comédia” estará disponível a partir de quinta-feira em salas de Castelo Branco, Coimbra, Lisboa, Portimão e Porto.
Texto realizado por: Tiago Dias
