1. Ao me deparar, apenas superficialmente, com artigos de figuras da extrema-esquerda, agora integradas no seio do Partido Socialista, o que realmente me surpreende não é a falta de cultura, a “brutalidade” ou a escassa capacidade de seus autores. O problema é muito mais profundo: é o preconceito ideológico que os mantém em um isolamento do qual não conseguem sair, e que, a longo prazo, os levará à irrelevância.
Os intelectuais de menor expressão da extrema-esquerda não conseguem simplesmente assumir uma posição imparcial para tentar compreender aqueles que não pensam como eles. Ignoram que essa postura de imparcialidade, que nos leva a nos colocar no lugar do outro para melhor entendê-lo, é fundamental para a formação de um julgamento. Não esperaria que tivessem lido Kant, que provavelmente nem sabem quem foi, mas, ao menos, que conseguissem entender o que é senso comum. Basta lembrar que com-praehendere, segundo a etimologia, significa apreender com o outro e através dele, uma noção essencial à experiência social. No entanto, eles não compreendem isso. Acreditam que entender é apenas ouvir atentamente os discursos dos líderes do PC, do Livre ou do BE.
2. O senso comum é uma qualidade essencial para aqueles que vivem em sociedade, isto é, na presença dos outros. Sem ele, a comunicação se torna impossível e a convivência em comum é inviável. Portanto, é crucial libertar-nos de nossas idiossincrasias pessoais para encontrar uma base de entendimento com o próximo. Isso pressupõe a convicção de que, apesar de tudo, compartilhamos algo em comum e que, através da tolerância e do raciocínio, podemos alcançá-lo.
Na sociedade, não existem certezas, apenas opiniões, que, por sua vez, não precisam ser preconceituosas. O que nos vale é o julgamento, ou seja, nossa capacidade de fundamentar nossas posições naquilo que todos, ou a maioria, possam aceitar, expressando isso apenas por meio da palavra. Aqui entra o difícil conceito de senso comum. Há nele uma dimensão não subjetiva, o que torna difícil utilizá-lo nas interações com os outros. O senso comum é o que nos permite viver coletivamente e consiste em uma disciplina mental que possibilita a comunicação com o próximo, superando nosso egocentrismo e até nossas preferências pessoais. É essa metodologia que Kant se referia como “faculdade de julgar”, a qual foi aplaudida pelo admirável G. Orwell, em consonância com os ensinamentos dos clássicos, começando pelo Livro VI da Ética a Nicómaco de Aristóteles, onde é desenvolvida a noção de phronesis (prudentia em tradução latina).
O senso comum transforma a mera opinião pessoal, pois se alinha à consciência coletiva. Através dele, geramos conhecimento, pois, em termos mais claros, ele é aliado da razão. O ato de julgar não serve apenas para enriquecer o espírito ou fazer suas considerações, mas é fundamental para que possamos viver em sociedade, que é para isso que fomos feitos.
3. Contudo, nada disso é percebido por aqueles da tribo esquerdista. Para eles, quem não faz parte desse grupo, maltrata as mulheres, é certamente adúltero, vai à missa e, se for aristocrata, é automaticamente considerado “decadente”, sempre “privilegiado”, estúpido, inculto, provocador e racista, defendendo, por certo, “retrocessos civilizacionais”, um termo agora na moda entre aqueles que utilizam essa ideologia com pouca clareza (leiam Kant para refletirem sobre o alegado “progresso” da humanidade), etc. Todos esses são pretextos para proferir considerações intolerantes e até odiosas.
Porém, isso não parece ser sua verdadeira preocupação. De fato, essa tribo não deseja comunicar-se com um público cada vez mais esclarecido. O que almejam é dominá-lo, impor convicções e dificultar seu pensamento. Seus membros acreditam, equivocadamente, que foram ungidos por alguma divindade e, portanto, iluminados pela graça, como novos calvinistas, têm uma grande missão a cumprir. O próximo nada lhes interessa: ouvem, mas não escutam; encontram, mas não veem. O totalitarismo e o autoritarismo estão no cerne dessa tribo.
A tribo se distancia cada vez mais do cidadão comum. Eles não percebem isso, mas se isolam. Com isso, acabarão presos a rituais ideológicos cada vez mais radicais e, talvez, esotéricos. Quer conhecê-los melhor? Leia o magnífico livro de M. Vargas Llosa, O Apelo da Tribo, recentemente publicado pela Quetzal, ou, se preferir algo mais incisivo, consulte Tolos, Impostores e Incendiários de R. Scruton, editado pela Almedina. Até me surpreende que tenham sido traduzidos para o português. Foi sem que a tribo soubesse. De qualquer forma, também não os leram.
Tenham certeza de uma coisa. A tribo não vale muito, muito pouco. Faz barulho, muito barulho, mas se não fosse pela mídia que amplifica suas vozes, ninguém mais a ouviria ou leria. Nela, destacam-se alguns imbecis que agora atacam as redes sociais, que desejam controlar, talvez através de programas de formação em “socialismo e democracia” e sobre os “verdadeiros valores de Abril”, entendidos à sua maneira, claro, patrocinados por comissões de jacobinos disfarçados, como se o povo português precisasse de tais imbecis para aprender a pensar. Mas acabarão sendo esmagados. No entanto, são incômodos. Não convencem, mas oferecem incômodo.
4. Na tribo há muitos cretinos, admirados com o que chamam de iliteracia juvenil. Afirmam que a juventude não lê, não se importa, não tem interesses culturais ou intelectuais. Nenhuma dessas afirmações é verdadeira. Não leem o marxismo barato que eles consumiram e não compartilham das preocupações que os inquietavam; possuem as suas. Eles vivem em um mundo completamente diferente daquele dos anos sessenta do século passado. É um ambiente altamente competitivo, implacável com os que falham, muito seletivo, cosmopolita e sempre em ritmo acelerado. Ao longo de minha vida profissional, sempre mantive contato com a juventude universitária e sei muito bem quem eles são, o que pensam e o que querem. Uma coisa posso afirmar à tribo: a juventude atual nada se emociona com os lamentos do 25 de Abril, com os que passaram pelas masmorras da PIDE, com os autores “neo-realeiros” de Coimbra, com as lutas estudantis da década de sessenta, ou com as vicissitudes do camarada Cunhal. Não se impressionam com a qualidade intelectual do capitão Vasco Lourenço, não se importam com a emancipação dos povos coloniais, com as diatribes sobre o suposto “fascismo” português, e tampouco se interessam pela música de “intervenção” que se fez na RDA, não frequentam o museu do Aljube e ficam indiferentes ao apelo de Seguro para que se lembrem de Abril. Eles não vivem no ambiente concentracionário de guerra civil ideológica que conheci tão bem na época em que fui estudante. A visão que a juventude atual tem do mundo é imediatista, liberal ideologicamente e “cool”, empresarial, funcional, hedonista e subjetiva. Isso é motivo para censurá-la? A tribo, que não leu J. Huizinga nem G. Lipovetsky, nem sabe quem são, sente-se ultrapassada e, em sua frustração, ataca furiosamente uma juventude que não compreende e que passa ao seu lado sem notá-la. Atribuir à tribo a pecha de ser esquerdista é, na verdade, um equívoco: são os moicanos que se encontram em extinção. Um dia, sobrará apenas um, erguendo o punho com um cravo na mão.
5. Sobre cada esquerdista português, a maioria oriunda do maoísmo e outros lugares pantanosos, não existe qualquer conexão com o que é socialmente aceitável. Eles permanecem presos a atitudes inicializadas por uma juventude fervorosa. O problema dos esquerdistas portugueses é sua incapacidade de aceitar a irrevogabilidade do passado e, ao invés de seguir em frente, buscam vingança apenas para superar a história que viveram.
Aos esquerdistas mais lúcidos, como já disse, creio que a ideologia se esvaiu, mas suas paixões permanecem. O que antes eram consequências, agora tornaram-se causas. A situação se agravou.
