A médica interna que denunciou práticas inadequadas no Hospital de Faro afirmou, em tribunal nesta terça-feira, que nos primeiros três meses de internato participou em mais de 180 cirurgias, principalmente como assistente, mas também como cirurgiã principal.
Diana Pereira, que prestou declarações como parte no processo civil que decorre no Tribunal de Faro, está a ser julgada por difamação após denunciar 11 casos de alegadas práticas cirúrgicas inadequadas no Hospital de Faro, em 2023.
No tribunal, a médica relatou que, além de várias pequenas intervenções, fez nove apendicectomias laparoscópicas (remoção do apêndice com técnica minimamente invasiva) em apenas um mês, inclusive em crianças e na função de cirurgiã principal, geralmente sob a supervisão do seu orientador, Pedro Henriques.
“Foi em Portimão [hospital para onde foi transferida após solicitar a suspensão de funções em Faro] que comecei a perceber que me faltavam [conhecimentos] básicos que deveriam ter sido ensinados previamente, muito antes de eu realizar cirurgias laparoscópicas,” comentou.
Diana Pereira expressou que se sentia “nervosa e com medo” em relação a certos passos das cirurgias, denunciando a pressão que enfrentou com tão pouco tempo de formação, o que a levou a solicitar um novo orientador.
A médica disse ter começado a questionar a competência de Pedro Henriques como orientador logo nas primeiras semanas de internato, pois o que observava no bloco operatório não correspondia aos vídeos educativos que assistia ao se preparar para as cirurgias.
A ré admitiu em tribunal ter alcançado um estado de “exaustão” após estar exposta a vários casos de alegadas má práticas deste, sentindo que não podia continuar a “compactuar” com tais situações, o que a tornava cúmplice, levando-a a fazer uma denúncia à Polícia Judiciária.
O cirurgião Manuel Parreira, que fazia parte da equipe de Diana Pereira, também foi ouvido em tribunal e descreveu Pedro Henriques, que foi seu interno, como um médico que “precisava de apoio de alguém mais experiente em intervenções mais complicadas”.
Ele reconheceu ter havido algumas queixas relacionadas à prática clínica desse cirurgião e admitiu ter a percepção de que mais novas intervenções eram realizadas após as cirurgias de Pedro Henriques — comparado a outros cirurgiões —, dado que, nestes casos, as complicações “eram mais frequentes”.
“Era comentado entre a equipe e tentávamos que as coisas melhorassem. [Entre os cirurgiões] dizíamos que aquele caso poderia ter sido realizado de outra forma, com menos complicações. Havia complicações que eram evitáveis, essa foi a ideia que ficou comigo,” declarou o cirurgião.
O diretor clínico do antigo Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) à época, Horácio Guerreiro, declarou em tribunal nunca ter pensado que Diana Pereira tinha a intenção de prejudicar o orientador, mas admitiu, entretanto, que achava que ela “podia não estar a julgar bem”.
Por conta disso, e por ter questionado a “sensatez” do ato de denúncia de Diana Pereira, Horácio Guerreiro fez um pedido à Saúde Pública para que ela fosse submetida a uma avaliação psiquiátrica, que não se concretizou.
O processo de difamação contra Diana Pereira foi movido por Gildásio Martins dos Santos, diretor do serviço de Cirurgia na época, que solicita uma indemnização de 172 mil euros, acusando a médica interna de ter “manchado seu bom nome e reputação”.
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A denúncia abrangeu 11 casos, sendo que três dos pacientes implicados nas cirurgias alegadamente inadequadas acabaram por falecer, enquanto os demais sofreram lesões corporais associadas a supostos erros médicos, incluindo castrações acidentais, perda de rins ou a necessidade de colostomia vitalícia.
As alegações finais do processo estão agendadas para a próxima terça-feira às 13h45.
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