“Devemos enfatizar que o imigrante que chega aqui, de boa-fé, deve se tornar americano e se assimilar a nós, sendo tratado em igualdade absoluta com todos os outros. No entanto, isso pressupõe que o indivíduo se torne, de fato, um americano e nada mais que um americano. Se ele tentar se manter segregado com pessoas de sua própria origem e separado do resto da América, então não está cumprindo seu dever como americano. Aqui não pode haver lealdade dividida. Qualquer homem que diga que é americano, mas também algo mais, não é americano de modo algum. Temos espaço apenas para uma bandeira, a bandeira americana, e essa exclui a bandeira vermelha, que simboliza todas as guerras contra a liberdade e a civilização, assim como qualquer bandeira estrangeira de uma nação da qual somos hostis. Temos espaço apenas para uma língua aqui, e essa é a língua inglesa, pois pretendemos garantir que o caldeirão transforme nosso povo em americanos, de nacionalidade americana, e não em moradores de uma pensão poliglota; e temos espaço para apenas uma lealdade de alma, que é a lealdade ao povo americano.”
Peço desculpas pela longa citação. O texto é extraído de uma carta que Theodore Roosevelt escreveu em janeiro de 1919, poucos dias antes de sua morte, reiterando as convicções que manteve ao longo da vida. Muito menos que um manifesto nacionalista, essas convicções buscavam definir o caráter da América e sua singularidade como um lugar de acolhimento e transformação, como um destino profundo, uma consagração geográfica e, por que não, “espiritual” do Ocidente.
A visão de T. Roosevelt, na verdade uma defesa da inclusão, permaneceu razoavelmente consensual durante décadas e foi evocada por vários de seus sucessores, de Kennedy a Reagan, sob aplausos gerais. Quando Trump a mencionou em um discurso de 2019, a reação foi explosiva, com ataques a Trump e uma fúria direcionada a T. Roosevelt, que uma grande parte dos EUA atuais vê como “supremacista”, “colonialista”, “imperialista”, “genocida cultural”, “nativista”, “ditador”, “opressor linguístico” e, claro, “racista”. O que mudou, entretanto?
O que mudou é complexo demais para ser descrito aqui. Ou, por outro lado, é convenientemente simples: mudaram os americanos e, com eles, os ocidentais em geral. É plausível que o processo tenha começado nas universidades, onde, a partir dos anos 1960 e culminando em 2000, por diversos contágios e mutações, surgiu uma nova estirpe do vírus marxista, que se aplicou a substituir as “classes trabalhadoras” da lenda e da “luta” por novos protagonistas do maniqueísmo social.
Os operários foram excluídos, considerados, em última instância, como traidores alinhados ao capitalismo, e foram convidadas a entrar na narrativa de opressão as “raças”, as nacionalidades, os credos, as preferências e as “identidades” sexuais. De repente (ou aos poucos: estou resumindo bastante), o Mal deixou de ser uma particularidade do “patronato” e passou a ser uma característica comum a todos nós, aqueles em que a cor da pele, a crença ou a falta dela, o país de origem, o sexo biológico ou a prática colocam no lado oposto ao das “vítimas”. As “vítimas” não são necessariamente aquelas que sofrem, mas quem tem direito a tal status por herança. E os “carrascos”, que não necessariamente fazem sofrer ninguém, são igualmente considerados. Essa situação, em que todas as culturas merecem igual reverência, exceto a nossa, relegada ao desprezo, foi chamada de “multiculturalismo”.
Vou continuar a resumir sem dó. Na virada deste século, o “multiculturalismo”, a “celebração das diferenças” e a humilhação do padrão de referência transbordaram do ambiente acadêmico para a vida real. Milhões de meninos e meninas de classe média-alta, saídos das “ciências” (risos) humanas e adentrando o “mercado”, trouxeram consigo as alucinações universitárias e a urgência de expiar seus “pecados”, pecados de nascimento, de melanina, ou de qualquer outra coisa. Alguns acabaram em posições de influência nos “media”, outros em cargos de poder na política. Nos Estados Unidos e, por derrapagem, na Europa, a retórica da “culpa” tornou-se comum, o fardo do homem branco tornou-se insustentável e, em troca do inglês, o desprezo pelo Ocidente assumiu a forma de língua franca no discurso público e nas ruas das grandes cidades, por definição suscetíveis à concentração de autóctones evangelizados por fundamentos da esquerda que não mudaram com as circunstâncias: a ignorância, a preguiça e a inveja.
E o resto é história, a história de como se inverteu a aceitação dos ideais de T. Roosevelt e se começou a receber imigrantes com uma reverência proporcional à “diferença”, ou seja, à hostilidade em relação a nós, à aversão à nossa civilização (coitada) e, entre um tipo particular e abundante de imigrantes, à vontade de nos subjugar pela força ou pela demografia. É a história de como um muçulmano com ligações à Irmandade Islâmica e simpatias em relação ao Hamas, um estrangeiro que abomina tanto o país de acolhimento quanto valoriza Uganda, a Índia dos ancestrais e, sobretudo, a “Palestina” da cartilha, um anti-semita moldado por um acadêmico que valoriza o bombista-suicida, um demagogo rico “formado” em Estudos Africanos, chegou a promessas de coletivismo cubano para se tornar “mayor” de Nova Iorque.
O problema não é apenas a figura de Mamdani ou os danos que ele pode causar a Nova Iorque. O cerne da questão é o sinal que os nova-iorquinos emitiram, mostrando que até a metrópole mais emblemática da Terra não está imune ao suicídio. Se Nova Iorque, uma vez símbolo do “caldeirão” de que falava Roosevelt, pode cair, pouco impede a América urbana de imitá-la e, inevitavelmente, de arrastar o que resta do Ocidente também. A ordem da queda é incerta. Se continuarmos assim, a derrocada é garantida.
