Para Pedro Meneses, defesa do Vila Meã, a segunda-feira foi tudo menos comum. Após acordar cedo e abrir seu estúdio de “personal training”, sua mente ainda estava ligada ao golo que marcou no domingo, que resultou na eliminação do Leixões da Taça de Portugal.
A equipe do concelho de Amarante se destacou como um dos “tomba-gigantes” na quarta eliminatória e é a única do Campeonato de Portugal, que é o quarto escalão, a estar nos oitavos de final.
Meneses, um central de 31 anos, já havia sido o herói da equipe na primeira eliminatória, marcando dois gols contra o Aparecida. Desta vez, novamente se destacou contra o Leixões.
O tradicional clube de Matosinhos abriu o placar com um gol de Bica, aos 14 minutos. Meneses afirma que “a diferença de quem joga duas divisões acima foi evidente: eles chegaram e, numa transição, conseguiram marcar. Começamos a pensar que a situação poderia ficar complicada.”
Com 21 minutos de jogo, o guarda-redes do Leixões foi expulso, equilibrando a situação. “Sentíamos que não estávamos a ser inferiores e que podíamos marcar a qualquer momento,” admite Meneses.
O gol do empate aconteceu ainda no primeiro tempo, através de Joy, mas o jogo foi para o prolongamento. Nesse momento, Meneses fez sua jogada decisiva: “Quando meu colega desviou e vi a bola vindo em minha direção, sabia que teria que chutar com o pé esquerdo.”
Com um adversário pressionando e em desequilíbrio, ele finalizou em queda, perto da marca do penalti. O chute foi certeiro e sem chance para o goleiro. Era o gol da vitória.
“Apenas me lembro de vê-la entrar, a torcida toda pulando e sendo cercado por todos,” recorda a Bola Branca. Ele até pensou em tirar a camisola, mas se conteve: “Lembrei-me que tinha amarelo e, se conseguíssemos vencer, ficaria suspenso. Ainda bem que me contive.”
Um central não costuma marcar muitos gols, mas este ficará marcado, especialmente porque Meneses foi formado no Leixões.
“Muitos colegas me ligaram dizendo que era uma pena ter marcado contra o Leixões, essas são as coincidências da vida. Foi o clube que me formou e tenho um carinho especial por ele,” diz.
Como se cria um “tomba-gigantes”?
O jovem elenco do Vila Meã é treinado por um técnico em busca de afirmação. Pedro Campos, de 33 anos, trabalhou como adjunto de Vítor Paneira no Varzim e já passou por outras equipes como Lourosa, Vilaverdense, Paços de Ferreira, Salgueiros e FC Porto.
Apesar das desigualdades, ele preparou o time para competir de igual para igual: “Mantivemos nossa estratégia, focados em nossas ideias.”
Nesta temporada, o Vila Meã jogou 13 partidas e perdeu apenas uma, ocupando o segundo lugar na série B do Campeonato de Portugal, especialmente notável considerando que a equipe subiu este ano do futebol distrital.
“A expectativa de surpreender envolve todas as equipes que sonham com a Taça. O Leixões era o favorito, pela sua qualidade coletiva e individual, mas acreditávamos que no nosso melhor, poderíamos fazer acontecer,” destaca. E assim foi.
Meneses revela que o espírito de superação foi cultivado durante a semana: “Acreditávamos que poderíamos fazer história e conquistar essa felicidade.”
Antes de chegar à quarta ronda, o Vila Meã eliminou duas equipas do mesmo escalão, Aparecida e Limianos, além de uma do distrital, Vila Caiz. Enfrentar o Leixões foi um desafio de maior dificuldade, e para isso, o clube se esforçou para igualar as condições e rotinas.
“Tomamos o pequeno-almoço em um hotel, o que nos deu uma sensação mais profissional do que o habitual. Inclusive, o Nacional da Madeira estava lá. Vivemos mais o dia e o momento. O grupo estava confiante, sem stress e sem pressão. Jogando em casa, como temos feito, poderíamos ter uma chance,” conta o defensor.
Eliminar o Leixões foi um momento de “euforia,” segundo o treinador Pedro Campos. Fundado há mais de 80 anos, o Vila Meã está mais ligado à história do futebol distrital do Porto. Esta é apenas a quarta participação do clube no Campeonato de Portugal.
“Vi as pessoas vibrando, emocionadas. Vi os diretores, que são os mais próximos, muito emocionados. Gratidão é a palavra,” destaca o jogador.
Para Meneses, que chegou ao clube em 2022 após passar por Leça, Sousense, Padroense, Gondomar e Paredes, o Vila Meã é “um clube de vila, da terra,” e isso “é o melhor que o clube tem.”
“Desde que cheguei, o clube tem crescido, introduzindo novas ideias e melhorando várias coisas, sem nunca esquecer sua origem como clube de vila,” explica o defensor de 31 anos.
Visitar um grande, sem pensar na subida
Como a única equipe do quarto escalão ainda em competição, o Vila Meã está ciente de que não será o favorito nos oitavos de final, que tem o adversário por sortear.
Agora que alcançou sua melhor prestação na história do clube, a equipe nutre a esperança de jogar em um dos maiores palcos. “Preferiria enfrentar um grande. Temos um grupo muito jovem e é uma experiência que eles deveriam ter. O grupo e o clube merecem isso, sem esquecer a parte financeira, que é muito importante,” explica o central.
O treinador concorda: “Gostaríamos de vivenciar o que é jogar contra os melhores, isso nos faria crescer tentando resolver os problemas que esses jogos trariam. O que todos queremos, claro, é ir o mais longe possível, mas se não for possível, já chegar aqui representa um grande mérito.”
Apesar da boa campanha na Taça e da posição elevada no Campeonato de Portugal, Pedro Campos não pensa na subida de divisão. O objetivo permanece: estabilizar o clube no futebol nacional.
“A manutenção nunca será uma preocupação menos importante. Reformularemos os objetivos no futuro, mas, por enquanto, queremos um ano tranquilo e preparar o clube e os jogadores para almejarem algo maior,” conclui.
Após a euforia, muitos jogadores tiveram que voltar à rotina da segunda-feira. Acordaram cedo e foram trabalhar.
“Tudo passou muito rápido porque, em seguida, já estás pensando que, no dia seguinte, precisarás ir trabalhar,” confessa.
O treinador, que vive apenas do futebol, admite que “é sempre difícil” para os jogadores dividirem suas vidas entre trabalho e futebol, mas isso pode ser “um meio para um fim.”
“Esse tipo de experiência também molda personalidades e valoriza o que se pode conquistar. Eles mereceram esse momento para que, um dia, quem sabe, possam sentir que vivem apenas para o futebol,” prevê.
Aos 31 anos, Meneses pode já não ter o desejo de atingir o futebol profissional que alguns de seus colegas têm. Para ele, a vitória foi um sinal de superação.
“Vivemos o dia de ontem como se fôssemos profissionais e hoje voltamos à realidade. Tivemos que retornar, mas isso também mostra que o que fizemos é ainda mais valioso. Não dependemos disso, trabalhamos de manhã e treinamos à noite, e eliminar uma equipe que vive apenas do futebol ressalta ainda mais nosso esforço,” conclui.
