Acesso ao Ensino Superior: A Aprendizagem como Base e a Necessidade de Considerar Todo o Percurso

"Acesso ao Ensino Superior: A Aprendizagem como Base e a Necessidade de Considerar Todo o Percurso"

O Governo aprovou a reposição do acesso ao ensino superior através de apenas um exame. Embora seja uma medida positiva, o diretor do Piaget, Rui Tomás, ressalta que ela é “tardia” e acredita que o acesso ao ensino superior deve ser reavaliado.

Após doze anos de estudo, a decisão do acesso ao ensino superior é, afinal, definida nas poucas horas que os estudantes passam em exame. “Acaba por ser um bocadinho redutor de todas as competências que foram adquiridas”, destacou Rui Tomás em entrevista ao ECO, defendendo a necessidade de repensar como se abre a porta para continuar os estudos em Portugal.

O diretor considera a decisão promovida pelo Governo no final de janeiro de permitir que as instituições estabeleçam entre uma e três provas de acesso, ao invés de um mínimo de dois exames, como algo positivo. Rui Tomás argumenta que essa medida não compromete a qualidade dos alunos que ingressam no ensino superior.

Sobre a implementação da inteligência artificial nas universidades — um tópico que gerou controvérsia após a assinatura de um manifesto por vários professores contra essa tecnologia –, o diretor do Piaget afirma que é algo semelhante a tentar “parar o vento com as mãos”. Antes, é fundamental aprender e ensinar a utilizar essas ferramentas “com responsabilidade e espírito crítico”.

O ensino superior em Portugal encontra-se atualmente numa fase de transição. Os desafios relacionados às novas profissões exigem uma adaptação do sistema. O ensino superior deve ser emancipatório, capaz de se reinventar. Além disso, há mudanças legislativas e sociodemográficas que impactam a realidade educacional.

Rui Tomás mencionou que a realidade do ensino superior é diversa: “Alguns sim, outros não. O Piaget se esforça para estar atento às necessidades e manter uma dinâmica de formação adaptativa. A universidade é mais do que um lugar de ensino; é um espaço para reflexão e desenvolvimento de competências críticas, funcionando como um laboratório social onde os jovens compreendem o que os aguarda ao sair.” Ele sublinhou que o ensino superior mudou nos últimos anos, refletindo as transformações da sociedade e as demandas do mercado de trabalho, sendo responsabilidade das instituições inovar nos seus programas de formação.

A função principal de uma universidade é formar, mas para um contexto, um propósito, algo real.

No Piaget, a relação com o mercado de trabalho é orgânica. A universidade deve estar conectada ao tecido social e empresarial, e sua principal função é formar alunos em um contexto prático e real. Todos os programas de formação estão ancorados em parcerias e estágios. À medida que o ambiente ao redor muda, a instituição cresce e se reinventa.

Quando questionado sobre como o Piaget está lidando com a inteligência artificial, Rui Tomás afirma: Negar a inteligência artificial é tentar parar o vento com as mãos. Esta tecnologia é transformadora. A instituição busca que estudantes e docentes a utilizem de maneira responsável e crítica, ressaltando que a inteligência artificial, apesar de ser uma ferramenta poderosa, não substitui o talento humano.

Em sala de aula, o papel do professor já não é ser um mero transmissor de conhecimento. A inteligência artificial apenas tornou essa função expositiva ainda mais secundária. O que se espera dos docentes hoje é que eles estimulem o pensamento crítico e promovam a reflexão, tornando seu papel mais transformador.

A formação contínua é crucial para que os professores tirem pleno proveito da inteligência artificial. Rui Tomás destaca que um professor que se limita a expor conteúdo através de apresentações não consegue se conectar com os alunos, os quais têm acesso a recursos mais atrativos online. É essencial formar continuamente os professores. A formação pedagógica é um requisito para professores do ensino básico e secundário, mas para o ensino superior, esse requisito muitas vezes não existe. É errado supor que alguém que possui conhecimento em determinada matéria será necessariamente um bom docente e um agente transformador. O Piaget já promovia a formação contínua para professores do ensino superior e agora intensificará esse esforço.

Rui Tomás afirma que proibir a utilização de Inteligência Artificial no ensino superior, como sugerido em um manifesto recente, não faz sentido. “Onde estaríamos hoje se algumas inovações contestadas há 100 anos tivessem sido efetivamente proibidas? O crescimento e o progresso dependem da abertura à mudança.”

Ao abordar o recuo no número de inscrições neste ano letivo, Rui Tomás observa que isso é consequência de fatores externos à vontade dos alunos, como mudanças nas regras de ingresso e o fenômeno das duas provas de acesso. Ele enfatiza a necessidade de facilitar o ingresso dos jovens no ensino superior e critica a criação de obstáculos no fim do ciclo de ensino secundário, considerando isso contraproducente.

O ensino superior não precisa ser algo de difícil acesso, pois quem completou a escolaridade obrigatória e estudou 12 anos deve ser capaz, como adulto, de continuar seus estudos.

Com relação à recente decisão do Governo de restaurar a regra que permite que as escolas solicitem entre um e três exames, Rui Tomás considera essa medida positiva, embora reconheça que é tardia. Aumentar a flexibilidade é bom, mas ele ressalta que o modelo de acesso deve ser cuidadosamente pensado.

O diretor argumenta que o ensino superior não deveria ser apenas um elitista; todos deveriam ter a chance de acessar após 12 anos de ensino. É necessário reconhecer a necessidade de padrões de entrada, mas também se focar no perfil de formação que as instituições oferecem.

Quando questionado sobre se substituir a exigência de pelo menos dois exames por apenas um não representa um abaixamento da qualidade, Rui Tomás rebate: “Por que duas provas garantiriam maior qualidade? Poderíamos exigir três ou quatro, sem limites.” Segundo ele, o foco deve estar no conjunto de competências adquiridas durante os doze anos de estudo, e não apenas no desempenho em um único exame. Ressalta que essa abordagem condiciona a avaliação das competências adquiridas ao resultado de um teste de duração limitada, sendo bastante redutivo.

Rui Tomás observa que outros países têm abordagens mais holísticas no acesso ao ensino superior, onde as instituições podem estipular suas próprias condições, como considerar a média de todo o percurso escolar ou realizar entrevistas.

Quanto ao Piaget, ele ainda está definindo se exigirá apenas um exame para os cursos oferecidos, citando que algumas áreas não justificam mais de um exame, enquanto outras continuarão a manter a exigência de duas provas.

Alguns estudantes se candidataram, entraram, pagaram e, depois, ficaram à espera, o que os fez perder essa oportunidade.

Rui Tomás destaca a importância da internacionalização no Piaget, afirmando que a instituição tem uma longa trajetória nesse aspecto, com muitos estudantes de diversas nacionalidades. Contudo, ele menciona que há dificuldades significativas na obtenção de vistos, o que impede jovens fora da União Europeia de se integrarem. A política de concessão de vistos atual é incompatível com a promoção da internacionalização. Estudantes acabam perdendo oportunidades preciosas devido a atrasos no processo de visto.

Ele reconhece que alguns candidatos desistem de seus planos acadêmicos por conta das complicações com os vistos, questionando a eficácia atual of processos. Embora a nova política governamental sobre imigração tenha surgido, os problemas persistem.

Rui Tomás acredita que seria possível simplificar os processos sem comprometer a segurança, mas critica a falta de eficácia, com procedimentos que parecem estagnar. Muitas vezes, os vistos não são nem mesmo negados, mas simplesmente não são concedidos, deixando os estudantes em um estado de incerteza.

O diretor vê um futuro promissor para o Piaget, destacando que a instituição tem um papel ativo na sociedade e na educação. Com a intenção de atualizar programas e se manter atento às novas necessidades do mercado de trabalho, o foco estará sempre na empregabilidade das competências que oferecem aos alunos.

ondaCoimbra.pt
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