Localizada em Famalicão, a Hess possui a única fábrica fora da Suíça. No âmbito de um roteiro industrial promovido pela autarquia, o ECO/Local Online foi conhecer este “segredo” da indústria automóvel nacional.
Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, a Bielorrússia tornou-se um local arriscado para empresas estrangeiras como a fabricante de autocarros Carrosserie Hess AG. A sua proximidade política com Moscovo fez com que o país fosse afetado por “sanções internacionais que criaram bloqueios e desafios logísticos, forçando a empresa a deixar Minsk. Ao decidir sobre a relocalização, a sede voltou-se para Portugal”, detalha Pedro Azevedo, diretor-geral da única fábrica da Hess fora da Suíça, enquanto nos guia pela área de montagem dos autocarros em Lousado.
A escolha de Portugal para a instalação da fábrica “surgiu naturalmente, [pois] já havia uma conexão profissional com o nosso país: um membro da família tinha estagiado numa empresa de autocarros na região de Vila Nova de Gaia. A preferência do proprietário por Portugal foi, portanto, evidente”, explica Pedro Azevedo, cercado por pneus e cabos elétricos empilhados, além de componentes organizados em filas no chão da fábrica.
Ele nos conta que a maior parte destes autocarros elétricos, que observamos sendo montados como peças de Lego, circula em vias dedicadas em Zurique, Genebra ou Génova (Suíça), Clermont-Ferrand (França) e Brisbane (Austrália), semelhante ao que já acontece com o metrobus do Porto e do Mondego. Apesar de haver capacidade produtiva em Portugal, os autocarros a hidrogénio são produzidos fora do país.
Vamos ter de acelerar as linhas [de montagem] e, por isso, teremos de contratar mais de um terço dos trabalhadores que temos, na prática mais 90 pessoas.
Alguns municípios já mostraram interesse nos modelos da Hess através da unidade industrial de Lousado, um movimento impulsionado pelas verbas do Plano de Recuperação de Resiliência (PRR), revela o diretor enquanto descreve o processo de montagem dos veículos. Contudo, os negócios ainda não avançaram.
Nas linhas de montagem, os operários dividem-se entre a montagem do chassis e da carroçaria, a instalação de cabos elétricos e a colocação de bancos e varões, completando 80% dos metrobus ou “Bus Eco”, como também os denomina Pedro Azevedo. Os veículos são então enviados para a sede em Bellach, no cantão suíço de Solothurn, onde recebem baterias e motores elétricos, além da decoração final.
Durante a nossa visita a Lousado, acompanhamos o processo de montagem em um ambiente repleto do ruído contínuo das máquinas e dos trabalhadores soldando e movimentando-se. É nesse cenário que Pedro Azevedo anuncia, com um sorriso: “A Hess Portugal começará a produzir um veículo por dia a partir do final deste mês de março, superando os 220 veículos até o final do ano.
Esse aumento da capacidade produtiva visa atender à crescente demanda por uma configuração de autocarro que já começamos a observar nas primeiras viagens dos Bus Rapid Transit (BRT) em Coimbra e no Porto, e futuramente em Matosinhos, por exemplo.
O reforço da produção na Hess Portugal será acompanhado pela contratação de mais 90 colaboradores, aumentando o total para 335, com salários a partir de “1.000 euros brutos, acima do salário mínimo nacional” (atualmente de 920 euros ilíquidos), além de “um seguro de saúde e outras regalias”, destaca, orgulhoso, o gestor da fábrica de capital suíço.
As melhores condições salariais para atrair mão de obra qualificada são elogiadas pelo presidente da Câmara de Famalicão, Mário Passos, que organizou a visita à fábrica como parte do roteiro “Famalicão Created IN”: “A Hess Portugal já paga salários que superam o mínimo nacional, o que é sempre positivo observar”.
Pedro Azevedo justifica a necessidade: “Vamos ter de acelerar as linhas [de montagem], logo, precisamos contratar mais de um terço dos nossos trabalhadores, ou seja, mais 90 pessoas”. Ele salienta a busca por profesionales qualificados: “Precisamos de carpinteiros, operadores de montagem de estruturas metálicas, eletricistas, mecatrónicos.”

Esse aumento da produção também vai resultar em quase duplicação da faturação no final do ano, de cerca de 72 milhões de euros para 140 milhões de euros, prevê Pedro Azevedo, informando que a maior parte dos componentes utilizados chega da Suíça, exceto o chassis, fornecido por uma empresa de Amares, no distrito de Braga. No entanto, a situação pode mudar em breve. “Temos como objetivo começar a adquirir tudo o que for possível em Portugal, visando a otimização da cadeia logística”, revela, informando que já estão sendo realizadas diligências nesse sentido.
Após a visita às três linhas de produção, Mário Passos expressou satisfação, elogiando a Hess Portugal por ser “um excelente exemplo” da capacidade do território em atrair investimento privado e mão de obra qualificada, além de continuar a se destacar na indústria.
“Este território tem uma característica intrínseca de ousadia e empreendedorismo. É essa soma de fatores que nos permite afirmar que, além de Famalicão ser uma terra de oportunidades, também garante sucesso às nossas empresas”, destacou Mário Passos, após percorrer as várias estações de trabalho, onde vimos a montagem do chassis, carroçaria, instalação elétrica, e os testes de mecânica, assim como o controle de qualidade final. O responsável pela fábrica ainda menciona que “são utilizados cerca de 32 quilómetros de cabo elétrico por autocarro”.

Assim, a Hess Portugal conseguiu colocar a freguesia de Lousado no centro do tecido industrial internacional, escrevendo um novo capítulo da empresa que encontrou “mais mão-de-obra qualificada e todas as condições para a produção dos autocarros” aqui, destaca o diretor-geral. A localização é estratégica, com fácil acesso rodoviário e ferroviário, além da proximidade ao porto de Leixões, facilitando exportações para toda a Europa.
Entusiasmado com o sucesso da Hess Portugal e do cenário empresarial do município, o presidente da câmara anunciou que nos próximos três anos, são esperados mais de 700 milhões de euros em investimentos privados. Mário Passos prometeu mais detalhes em um encontro a ser agendado, resumindo a operação à instalação de novas indústrias e projetos de expansão de empresas já existentes em Famalicão.
