Na semana passada, o CEO do BCP, Miguel Maya, enfatizou a necessidade de agir rapidamente para proteger negócios e postos de trabalho diante dos danos causados pelo mau tempo que devastou várias regiões do país. “O sentido de urgência é muito elevado,” disse ele. Não é para menos, pois os bancos também estão avaliando os estragos, com muitos milhões em risco: nas áreas que decretaram estado de calamidade, a exposição em crédito a famílias e empresas ultrapassa 24,6 mil milhões de euros.
“Se não formos rápidos a resolver este problema, a situação econômica em Portugal se tornará mais grave,” alertou Maya numa conferência em Lisboa, conforme reportado pelo Jornal de Negócios.
O problema é claro: “Se as empresas não conseguirem retornar ao mercado rapidamente, serão excluídas desses circuitos, o que afetará sua rentabilidade e o rendimento das famílias.”
Coimbra, Leiria, Lezíria do Tejo e Oeste foram algumas das regiões mais prejudicadas pelas recentes tempestades, onde se encontra a maioria dos municípios (quase cinquenta) que estão sob o nível de risco máximo, após a passagem da depressão Kristin no final do mês passado.
Embora essas regiões não sejam as que concentram mais atividade bancária, elas representavam cerca de 11% da carteira de crédito a particulares e empresas no final do ano passado, segundo dados do Banco de Portugal.
No que diz respeito às empresas nas áreas afetadas, a exposição dos bancos era de 8,2 mil milhões de euros em dezembro. Esse número praticamente duplica para 16,5 mil milhões quando se considera a exposição às famílias, incluindo crédito à habitação e consumo.
Os bancos enfrentam um desafio semelhante ao que viveram durante a pandemia, quando muitos negócios permaneceram fechados por longos períodos para conter a disseminação do vírus. Agora, os problemas estão, de certa forma, limitados a nível municipal, mas são mais complexos.
Além dos danos em propriedades e indústrias, há a incerteza sobre o restabelecimento de eletricidade e outros serviços essenciais para um retorno à normalidade. Quanto mais tempo as empresas ficarem inativas, maior será o risco de perder clientes para a concorrência. Como enfatizaram tanto Miguel Maya quanto o secretário-geral da Cefamol, Manuel Oliveira, “as empresas não podem perder o contacto com o mercado.”
Para os bancos, essa situação pode originar um problema de crédito malparado, algo que ninguém esperava apenas algumas semanas atrás. Se as fábricas não reabrirem (ou enfrentarem dificuldades significativas para voltar ao funcionamento), muitas famílias podem acabar no desemprego, dificultando o cumprimento de compromissos com as instituições financeiras.
Atualmente, as medidas de apoio anunciadas pelo Governo, como a moratória e o layoff, podem oferecer um alívio significativo para essas regiões. Contudo, um agravamento da crise a curto prazo pode implicar para os bancos um aumento nas provisões que precisarão registrar para se prepararem para cenários adversos.
O ECO questionou os bancos sobre a adesão à moratória nos primeiros dias (o despacho foi publicado na quinta-feira, mas com efeitos retroativos a 28 de janeiro), mas até o fechamento deste artigo, nenhum respondeu.
Em relação à necessidade de que os bancos sejam prudentes e reservem fundos para enfrentar um aumento no risco de crédito, a Associação Portuguesa de Bancos (APB) afirmou que “a forma como os bancos gerem sua relação com os clientes, aplicam políticas públicas e gerenciam riscos são assuntos específicos de cada instituição e somente elas podem se pronunciar sobre isso.”
O Banco de Portugal também não se manifestou sobre as questões levantadas pelo ECO, incluindo se está tomando medidas para orientar os bancos nesta situação.
Além das moratórias e layoff, as empresas têm acesso a linhas de crédito com garantias do Estado no valor de 1,5 mil milhões de euros, destinados a apoio à tesouraria (500 milhões de euros) e recuperação e investimento (1.000 milhões). O Governo reservou 100 milhões em subvenções, que as empresas poderão acessar caso mantenham suas atividades e postos de trabalho. Mais de 2.000 empresas já utilizaram essas linhas nos primeiros sete dias, com pedidos que superam os 500 milhões, segundo o Banco de Fomento.
Os banqueiros sentem que é cedo para um balanço conclusivo, mas reconhecem que as medidas já anunciadas podem ser insuficientes e pedem mais apoios a fundo perdido.
“Eventualmente, será necessário implementar mais medidas.” Estamos numa fase de avaliação, entendendo a magnitude dos danos,” referiu João Pedro Oliveira e Costa, presidente do BPI, destacando a importância de agir rapidamente para que as empresas possam obter alívio financeiro imediato.
“Diante do nível de destruição observado nas áreas de Leiria e da Marinha Grande, não parece que a solução se resuma a moratórias e mais crédito.”, reconheceu Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Portugal.
Castro e Almeida – que está prestes a se mudar para a Espanha — acredita que o Governo tem capacidade orçamental para avançar com essas medidas. “Portugal está apresentando um crescimento acima da média da Zona Euro, com a dívida pública em queda e superavits sendo registrados. Se há um momento adequado para usar o superavit em apoio a pessoas e empresas, é agora,” ressaltou.
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