Como está o elevador social?

Como está o elevador social?

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Estamos a iniciar o Eu Explico, o podcast que se dedica a um tema específico todas as segundas-feiras. Sou o Vasco Galhardo, o apresentador, e esta semana tenho comigo o José Paulo Soares, economista, que irá nos falar sobre a situação do elevador social em Portugal. Olá, José Paulo, obrigado por te juntares a mim hoje.

Olá, Vasco, o prazer é meu.

José Paulo, decidiste abordar este tema em resposta ao discurso do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco, durante a sessão comemorativa do 25 de Abril. Qual foi a razão?

Sim, ao ouvir o discurso, quando o presidente da Assembleia mencionava que o “país real” poderia ser uma forma de populismo e fazia referência a uma casta política, isso chamou-me a atenção. Lembrei que os partidos políticos têm se fechado em si mesmos ao longo dos anos. Eles são responsáveis pelo aparecimento de famílias repetidas na política, nomes recorrentes e, como se recorda, o caso da “Familygate” no governo do PS não é um caso isolado. Encontramos famílias onde as pessoas mais competentes de várias áreas estão a partilhar o mesmo espaço, sem necessariamente serem os melhores.

Estás a referir-te a uma situação familiar particular.

Sim, e é um pouco estranho que isso ainda ocorra. Além disso, lembrei-me da ideia do “país real” versus o “país dos políticos”. Há realmente uma diferença, já que muitos políticos se isolam nos seus gabinetes, não utilizam transportes públicos e não têm os filhos em colégios privados. Esse “país real” é difícil de alcançar por aqueles que não têm essa vivência. Pessoalmente, na semana passada, peguei no comboio da CP e cheguei ao Porto com duas horas de atraso. Este tipo de greves e constantes atrasos, tanto nos comboios de longo curso como nos suburbanos, são uma regra.

Isso afeta a vida de todos.

Certamente, e este fator é parte do que discutimos.

A realidade política impacta essas pessoas.

Exatamente. Aqueles que dependem dos transportes públicos são os trabalhadores que acordam cedo todos os dias para ir ao trabalho. Eles veem a sua classe política e pensam: “Essas pessoas não têm noção do que eu enfrento no meu quotidiano”. É compreensível que o sintam, porque realmente não têm esse entendimento. De acordo com a OCDE, uma família pobre em Portugal precisa de cerca de cinco gerações, ou seja, mais de 100 anos, para que seus descendentes alcancem um rendimento médio. A mobilidade social está completamente estagnada, e isso remete para vários fatores, principalmente pela má performance dos serviços públicos, especialmente a escola pública, que é o maior elevador social que temos. Isso se refletiu em várias etapas desde o ensino básico ao ensino superior. Observamos uma grande desigualdade entre alunos. Um dado que gosto de citar refere-se aos alunos bolseiros. Esses alunos costumam ser aqueles com maiores necessidades económicas e servem como um bom indicativo da situação social no sistema educativo. Um estudo da Fundação Belmiro de Azevedo, do qual sou bolseiro há sete anos, revela que apenas 43% dos alunos do sistema universitário público têm mães com ensino superior, enquanto no politécnico esse número cai para 24%.

É uma queda significativa.

Não tenho intenção de estigmatizar o politécnico, especialmente com a revisão do RJIES em breve. Contudo, isso demonstra que jovens provenientes de contextos socioeconômicos mais desfavorecidos enfrentam dificuldades para entrar em cursos que exigem notas mais altas. Isso não reflete a capacidade deles, mas sim uma série de limitações em casa, que afetam sua performance acadêmica. No sistema universitário da Universidade Nova de Lisboa, 75% dos alunos têm mães licenciadas, enquanto na Universidade da Beira Interior, esse número é de apenas 20%. A desigualdade é alarmante. Na Universidade de Lisboa, 68% têm mães com ensino superior, e na Universidade do Porto, as faculdades de medicina têm 67% e 64% de alunos com esse histórico. Além disso, em termos de porcentagem de bolseiros, temos 28,14% nas universidades, em contraste com 37,4% nos politécnicos. Essa disparidade se repete em cursos semelhantes: em Direito, 28,33% são bolseiros, enquanto em Solicitadoria, 50%. Em Medicina, os bolseiros são 15%, em comparação com 40% em Enfermagem. Os fatores de desigualdade são muitos, e a escola pública, assim como outras áreas, são parte do problema. O elevador social está inativo, e filhos de mães sem ensino superior enfrentam barreiras para entrar nas melhores universidades. Se o país não conseguir reverter isso, estará falhando em sua responsabilidade.

Como mencionaste, a política também desempenha um papel. O que observas em relação às desigualdades regionais no acesso a cargos de poder?

Acredito que essa questão é relevante. Quando analisamos universidades como a do Porto e Lisboa, vemos que são instituições similares. Porém, a predominância de políticos com formação em Lisboa é notável, não apenas na Universidade de Lisboa, mas em instituições privadas na capital.

Em Lisboa, não estás a falar apenas da cidade, mas do seu entorno também.

Sim, refiro-me ao estudo em Lisboa, onde se criam relações que beneficiam essas pessoas no futuro ao serem consideradas para determinados cargos.

Quem faz boas conexões na faculdade, muitas vezes colhe frutos depois.

Exatamente, isso é normal e positivo.

Concordo. Vale ressaltar que Montenegro é o primeiro primeiro-ministro desde 1979, desde Mota Pinto, que não se formou na cidade de Lisboa.

E Sá Carneiro se formou em Lisboa, correto?

Sim, Sá Carneiro se licenciou em Lisboa, embora tenha raízes no Porto. O atual presidente da Assembleia da República também é do Porto, mas estudou em Coimbra. Isso faz de Augusto Santos Silva o único presidente da Assembleia que se formou na Universidade do Porto. Creio que todos os presidentes da República também estudaram em Lisboa. Isso mostra um padrão preocupante de concentração em Lisboa, o que traz consequências para o resto do país. Quando imaginamos um jovem médio de Freixo de Espada à Cinta e o comparamos a outro que nasceu no Parque das Nações, podemos concordar que terão oportunidades muito diferentes, o que representa um problema. É um indício de um país que não oferece as mesmas oportunidades para todos. A distância dos centros de decisão capta sempre mais atenção devido às relações pessoais, o que é normal, mas é inaceitável ter uma classe política que ignora essa realidade e tenta desviar a atenção disso. É preciso que a classe política trabalhe por uma escola pública mais equitativa, capaz de funcionar como um verdadeiro elevador social, essencial para o desenvolvimento do país. Um país estagnado por quase 30 anos não pode se dar ao luxo de perder seu capital humano, seja por imigração ou por desperdício interno. Todos devem ser incluídos para que o país possa crescer e garantir que as próximas gerações tenham melhores condições que as de seus pais. É preciso alertar que nossa geração pode estar à beira de um limbo onde, no final das contas, nós também possamos viver situações piores do que as de nossos progenitores.

Por fim, gostaria de saber se achas que o governo atual está a tomar medidas para reduzir essas disparidades. Vês algo positivo?

Tenho notado alguns sinais positivos, especialmente da parte do ministro da Educação. Embora não seja um processo fácil.

Não se resolve rapidamente.

Exatamente, o governo está a atuar há dois anos. Ao final dessa legislatura, as desculpas devem ser limitadas. Mesmo agora, já não há muita margem para desculpas, a expectativa é que as políticas em desenvolvimento, tanto a nível das carreiras docentes como nas alterações curriculares e no acesso ao ensino superior, possam ter um impacto positivo para os jovens portugueses. É vital recordar que Portugal é o segundo país da Europa com o menor número de pessoas com ensino secundário, apenas à frente de Malta, se não me engano.

Não tinha essa informação.

Os números são alarmantes e refletem um passado em que o ensino secundário não era uma prioridade. Em um contexto onde ter filhos era uma maneira de garantir mão de obra, o processo de qualificação deverá exigir tempo e paciência. Contudo, existe um gráfico que gosto de mencionar que mostra a relação entre qualificações e rendimentos. Até o milênio ambas as curvas acompanhavam o crescimento uma da outra, no sentido de que quanto mais qualificações, mais rendimentos.

Mas e agora?

Nos últimos 25 anos, as qualificações continuaram a aumentar, mas os salários reais não acompanharam esse crescimento. A economia mostra sinais de estrangulamento de alguma forma. O que os portugueses esperavam ao qualificar seus filhos era oportunidades ampliadas.

Isso não está a se concretizar.

Sim, embora esteja a resultar, não se traduz na forma como as pessoas esperavam. É natural que haja uma maior oferta de mão de obra e, por isso, o prémio salarial diminua. O que não é aceitável é a falta de esperança entre os portugueses após 25 anos de estagnação, alimentando a ideia de que a situação irá permanecer assim. Isso é reflexo de uma classe política que falhou em transmitir esperança e na capacidade de aspirar a algo maior. Espero que o futuro seja diferente.

Certamente, aguardamos que mudanças positivas ocorram. Agradeço pela tua participação, Zé Paulo. Um abraço e até à próxima. O Eu Explico volta na segunda-feira com um novo tema. Desejo uma boa semana a todos.

Uma boa semana.

ondaCoimbra.pt
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