A delegação de Coimbra incluiu todos os parceiros da Manifesta 17, envolvendo o Município, a Universidade de Coimbra, a bienal Anozero e o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Esta frente local ganhou uma dimensão e uma força institucional excepcionais, graças ao apoio direto do Secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, que partilha conosco a visão de um projeto de Estado, e ao papel fundamental da nossa Embaixadora de Portugal na Alemanha, Madalena Fischer, cuja ação diplomática abriu portas e fortaleceu a nossa representação ao mais alto nível. Em conjunto com a Direção Geral das Artes (DGARTES), asseguramos uma transição de pastas bem-sucedida e afirmámos uma visão estratégica que entende a cultura não como um evento efémero ou de nicho, mas como um dos principais motores para uma reforma profunda na política da cidade.
O projeto que trazemos tem como objetivo responder diretamente aos desafios da estagnação demográfica e da perda de centralidade económica. Aspiramos reposicionar Coimbra e a Região Centro como polos de inovação no contexto nacional e europeu, desafiando a tradicional centralização em Lisboa e Porto. Esta ambição territorial vai além dos limites do Município, integrando a diversidade paisagística e a sustentabilidade ecológica da região em uma proposta que harmoniza o desenvolvimento urbano com a valorização do mundo rural. No centro dessa visão está uma forte vertente de regeneração, que rejeita a nociva ideia de uma cidade presa na nostalgia do passado. O nosso património classificado pela UNESCO deixa de ser apenas um legado contemplativo e transforma-se em um recurso vivo, um legado para o futuro.
O evento oficial de apresentação e receção que a Câmara Municipal organizou em Essen marcou o ponto alto dessa afirmação. Diante da imprensa internacional, curadores e mecenas de todo o mundo, estabelecemos as bases da Manifesta 17 e destacamos nosso plano de conversão urbana. Enfatizamos que nossa prioridade é a reativação urgente de eixos historicamente fundamentais, porém atualmente degradados e subaproveitados, com especial atenção à Rua da Sofia, que desejamos transformar em um espaço vibrante de fruição pública, experimentação cultural e valorização comercial, empresarial e habitacional. Tudo isso mantendo e reforçando uma forte conexão funcional com a Baixa, a Alta e o Rio Mondego, assim como com a extensão da Baixa à margem esquerda do rio.
Para sustentar essa transformação, a mobilidade desempenhará um papel crucial. Sob o princípio da Rapidez, reconhecemos que o desenvolvimento da cidade depende da melhoria estrutural das suas acessibilidades. Isso se traduz na necessidade de otimizar as conexões urbanas internas e fortalecer a conectividade de Coimbra com redes nacionais e internacionais, rompendo o isolamento geográfico e facilitando o fluxo de pessoas, ideias e conhecimento.
Essa reconfiguração física refletirá diretamente em nossa comunidade. Ao abrirmos a cidade à diversidade, através do princípio da Multiplicidade, buscamos elevar a autoestima e o orgulho dos cidadãos, combatendo os estereótipos que associam Coimbra exclusivamente ao passado. Na comunidade, encontramos nossa parceria mais estratégica, com os cidadãos sendo convidados a participar ativamente na construção de uma identidade contemporânea, onde o conhecimento científico se cruza com a vivência cotidiana.
Mais do que uma mera formalidade de passagem de testemunho, a nossa imersão na Alemanha serviu para estudarmos in loco o modelo curatorial descentralizado e de regeneração comunitária que os alemães aplicaram em suas igrejas e espaços industriais desativados. Essa é a função da Bienal, que surge como o grande catalisador dessa reflexão, unindo todas as dimensões do nosso projeto. A experiência acumulada com a Anozero, desenhada desde 2015, prova a capacidade da arte contemporânea de resgatar o espaço público, algo que já demonstramos ao reabrir edifícios devolutos como o Mosteiro de Santa Clara a Nova, atraindo milhares de visitantes através da mediação cultural.
Retornamos do Ruhr com redes de parceria consolidada junto da International Foundation Manifesta e com a certeza de que a Manifesta 17 será um motor decisivo para o nosso território e para nossas comunidades. Funcionando como um instrumento estratégico global que agrega visibilidade internacional, rigor e coerência ao planejamento urbano, permitirá a transformação permanente do tecido social, aliada a novas formas de mobilidade e à desejada afirmação de Coimbra.
Publicado na edição de 22/06/2026 do Diário de Coimbra
