1 Ah, os jantares em Lisboa e as voltas que eles dão. (Ou que querem que eles deem.)
Recentemente, houve mais um, o jantar dos supostos passistas e o seu (possível?) apoio a António José Seguro. Uma questão que já circulava há semanas, mas que foi revelada de forma indiscreta aos poucos, aqui e ali, quebrando o recato sugerido pelo autor da iniciativa de reunir algumas pessoas “sensatas” para conhecerem melhor um candidato presidencial; ou talvez um ouvinte casual desse encontro tenha decidido contar para atingir a meta de um jornal. (O qual, naturalmente, fez o que quis com a informação.)
O encontro agradou tanto aos anfitriões quanto ao convidado (que “gostou de ser”). Foi o pouco que soube, e até aqui nada disso mereceria uma linha, exceto pela questão dos comportamentos. E aqui, não sei o que é pior: se são pessoas que não conseguem conter-se – e acabam contando –, para brilhar com uma suposta “caixa”, transformando automaticamente um jantar de troca de ideias numa ocasião que nunca foi; ou se é dar intencionalmente seguimento jornalístico a uma história que, apesar de mal conhecida, será amplificada, muito condimentada e publicada em grande destaque. Aonde quero chegar? A isto: o jantar pode em última análise não beneficiar António José Seguro, mas sim os fictícios passistas que lá estavam; e ainda menos o verdadeiro Passos Coelho, que não sabia de nada, mas tem (e “acha natural”) amigos e correligionários espalhados pelos quatro principais candidatos presidenciais e não se preocupou mais com isso. Se entendo algo de política, não parece ser este o momento – para Seguro – de publicitar seu interesse ou satisfação com potenciais apoios do centro-direita (agora?).
É verdade que Seguro está numa fase de se encontrar com plateias diversas e de ouvi-las; e que evidentemente desconhecia que tal evento seria transformado publicamente num jantar de “apoiantes dos passistas”. Pode ser que eu esteja enganado, mas o infelize e intencionalmente mal utilizado “epíteto” pode não lhe ser favorável.
Eu, ao olhar para o jornal, acendeu-se um sinal vermelho.
2 Não sei quantas pessoas estavam – ignoro totalmente a “lista” completa da mesa de jantar – nem o que os convivas e o convidado de honra desse jantar de futuros apoiantes disseram – não precisava saber.
Sei o que a televisão me trouxe anteontem, numa entrevista com o mesmo candidato: num tom sempre sereno e afável, ouvi uma soma quase pueril de boas intenções, com o maior denominador comum entre elas: “resolver problemas dos portugueses”. Ele falou disso com o entusiasmo de quem faz uma descoberta: como se ninguém antes se tivesse preocupado com o estado do SNS, da Justiça, da Habitação; ou como se a resolução dos problemas – que, sim, reconhecemos, são reais – dependesse de “consensos” ou de simplesmente “construir pontes” para que as pessoas conversem umas com as outras; depois, pareceu-me uma postura muito intrusiva nas áreas de governação, admito que motivada pela vontade de fazer o bem. António José Seguro parecia transbordar de uma auto-satisfação contida, mas real, com a sua própria descoberta de um “modelo” presidencial novo ou completamente inédito, e nada do que ouvi era novo ou inédito.
Além disso – é bom destacar – estabeleceu-se o mandamento de qualquer candidato presidencial hoje: ser diferente, ou até mesmo oposto, ao atual Chefe de Estado (o que se está tornando uma espécie de palavra-passe dos candidatos para abrir o portão de Belém). Tudo isso soou um pouco previsível, um pouco banal, um pouco monótono, um pouco redondo. Mas, repito, sempre educado, sempre afável, isso é algo que não deve ser menosprezado.
Uma apoiadora, e amiga, a quem expus isso minutos depois, disse-me de forma lacônica: “pode funcionar”.
Entendo-a e penso o mesmo: pode. Porque qualquer coisa além do sr. Almirante e do sr. Ventura na segunda volta. Tão felizes e contentes como o “Sr. Contente” e o “Sr. Feliz” do Herman José, há alguns anos. Mas aqueles eram a brincar.
PS: António José Seguro deseja Belém. Não será com o meu voto, sou fiel às minhas pertenças. Ao que implicam, ao que significam. O que não me impede de fazer este apontamento. Conheço António José Seguro há muito tempo, nunca o hostilizei, encontramos-nos às vezes na sua cidade natal – Caldas da Rainha – muito perto do concelho de Óbidos, onde costumo ir. Pedi-lhe uma entrevista há seis ou sete anos, “estava afastado” e estava mesmo: uma longa distância da política, feita de recato e silêncio, após o modo como António Costa o afastou de forma abrupta e sem pré-aviso do PS que ele liderava. Nesse intervalo, deu aulas e fez vinho, algo sensato. Mais tarde, pedi outro encontro, aquele “caso” interessava-me, mas ele recusou novamente, estava prestes a entrar para a CNN como comentador. E agora, ele está onde está, numa estrada de sentido único, a correr. Estarei atenta, como sempre estive, a este percurso que não é totalmente desinteressante, mas…
