O Conflito entre Leão e Leitão

O resultado das eleições autárquicas foi claramente mais favorável para a AD do que para o PS. Seja pelas vitórias nas principais cidades do país, pelo número de autarquias conquistadas ou pela comparação com 2021. O PS, mesmo assim, teve uma derrota honrosa, continuando a ser um dos dois partidos portugueses com maior expressão autárquica, embora o Chega tenha crescido substancialmente, ficando ainda assim distante do PS, como era esperado dada a dinâmica do poder local. O PS obteve vitórias importantes em cidades como Coimbra, Faro, Évora, Bragança e Viseu.

Entretanto, um dos principais destaques que emerge desta eleição para o PS é o contraste entre a pesada derrota da frente de esquerda liderada por Alexandra Leitão em Lisboa e a vitória expressiva de Ricardo Leão em Loures. Vale a pena refletir sobre esses resultados. Carlos Moedas, vindo de uma vitória apertada em 2021 (34% da AD frente a 33% obtidos pela coligação PS/L), ampliou significativamente sua margem de vitória, obtendo cerca de 42% dos votos contra os 34% de Alexandra Leitão. Embora a coligação liderada por Moedas também tenha contado com o apoio da IL (que tinha conseguido apenas pouco mais de 4% em 2021 e que provavelmente não foi essencial para a sua vitória em 2025), a frente de esquerda de Leitão foi reforçada pelo BE e PAN (que, em 2021, somaram quase 9% dos votos). Ao somar a essa aritmética das coligações a realidade de quatro anos de gestão autárquica de Moedas em Lisboa, que poucos eleitores consideraram particularmente entusiasmante, parecia estar formado um cenário propício para uma vitória significativa da esquerda na capital.

Como, então, explicar a pesada derrota da esquerda em Lisboa? É tentador (e não totalmente infundado) atribuir a culpa ao PCP: o carisma de João Ferreira angariou quase 27.000 votos, bem acima da margem de vitória de Moedas sobre Leitão, que não chegou a 21.000 votos. Com o sucesso da candidatura de João Ferreira, os comunistas contribuíram significativamente para a manutenção de Carlos Moedas no poder. Contudo, é verdade também que o Chega passou de cerca de 4% em 2021 para 10% em 2025, ganhando igualmente quase 27.000 votos. Mesmo assim, a coligação liderada por Moedas venceu com uma margem confortável. A lição de Lisboa é que o eleitorado rejeitou de forma tão intensa o frentismo de esquerda que mobilizou-se para apoiar um incumbente que não estava em uma posição particularmente confortável para ser reeleito. Carlos Moedas, como político perspicaz que é, deve interpretar o resultado com humildade e usar o segundo mandato como uma oportunidade para corrigir e melhorar o que não conseguiu realizar nos seus primeiros quatro anos de liderança em Lisboa.

Alexandra Leitão e o notório radicalismo da sua frente alargada de esquerda foram os adversários ideais para Moedas mobilizar o eleitorado. Um momento particularmente emblemático do desfasamento da campanha frentista de Leitão em relação à realidade foi a sua decisão de trazer Mariana Mortágua de volta à campanha perto do fim do período eleitoral. Ao aparecer ao lado da líder bloquista (recém-regressada do Médio Oriente, onde se envolveu em ativismo), Leitão (e por extensão toda a coligação do PS em Lisboa) acabaram por validar o discurso de Moedas sobre a ameaça da esquerda radical na capital. Nada que Moedas pudesse ter dito naquele dia foi tão impactante para o eleitorado que rejeita o radicalismo quanto a imagem de Leitão ao lado de Mortágua.

Em contraste absoluto, Ricardo Leão concorreu sozinho em Loures, adotando um posicionamento mais centrado, alinhando-se com as preocupações dos eleitores locais. Um exemplo da abordagem que o autarca eleito pelo PS em Loures adotou e que ganhou destaque no final de 2024 foi a sua defesa pelo despejo de arrendatários de habitações municipais envolvidos em distúrbios na via pública, o que gerou reações hostis, especialmente da esquerda mais radical, mas que também incluíram figuras de destaque dentro do próprio PS. É relevante recordar o infame artigo “Em defesa da honra do PS”, assinado por António Costa, José Leitão e Pedro Silva Pereira, que argumentava que Ricardo Leão “ofende gravemente os valores, a identidade e a cultura do PS”. Curiosamente, a então líder parlamentar Alexandra Leitão foi uma das vozes críticas mais notórias de Leão. No entanto, o eleitorado de Loures não subscreveu as críticas e reelegeu Leão (que havia sido eleito em 2021 com 32% frente aos 29% da CDU) com 44%, garantindo-lhe uma maioria absoluta e mais do dobro da votação do segundo classificado, que passou a ser o… Chega, com 21% (ficando a AD com 15% e a CDU reduzida a 11%).

As lições de Lisboa e Loures deveriam levar o PS a uma reflexão profunda. Isso é particularmente relevante considerando que, ao contrário de Lisboa (onde o candidato socialista obteve 42% em 2017 e 51% em 2013), Loures nunca foi um território historicamente tão favorável ao PS (a CDU venceu a Câmara com 33% em 2017 e 35% em 2013). De forma compreensível, em uma entrevista ao Observador que vale a pena ouvir, Leão fez críticas contundentes a António Costa e Alexandra Leitão, em um chamado para que o PS mude de rumo, abandonando o radicalismo e buscando atender às verdadeiras preocupações dos eleitores.

A opção simbolicamente representada pela divisão entre Leão e Leitão é, neste momento, a mais crucial para o futuro do PS. E não podemos esquecer que o líder do Chega, André Ventura, emergiu politicamente em Loures. Quem sabe se Loures não definirá também o futuro da liderança do PS?

ondaCoimbra.pt
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