O materialismo e a condição humana: Virgílio Antunes e a Igreja Católica em busca de novas espiritualidades

"O materialismo e a condição humana: Virgílio Antunes e a Igreja Católica em busca de novas espiritualidades"

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Este é o Sob Escuta da Rádio Observador. Hoje, conversamos com o bispo Virgílio Antunes, bispo de Coimbra e recém-eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Bem-vindo, Dom Virgílio, obrigado por aceitar o nosso convite para esta entrevista.

Muito obrigado.

O senhor foi eleito em abril para suceder ao bispo José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, após um mandato marcado pela questão dos abusos sexuais. Foi a direção anterior que convocou a comissão independente que abordou essa questão na Igreja nos últimos anos. Devemos considerar a sua eleição como um sinal de que os bispos desejavam continuidade nessa linha?

Existem várias interpretações sobre isso. Não posso afirmar com certeza, uma vez que o voto na eleição do presidente, do vice-presidente e dos outros membros é secreto. Cada bispo vota sem comunicar suas razões ou preferências, e, portanto, eu não sei. Contudo, posso concluir que, considerando meu papel como vice-presidente do Conselho Permanente nos últimos seis anos, o tema dos abusos provavelmente teve um peso significativo na escolha.

Foi o seu papel de vice-presidente que influenciou isso?

Sim, participei ativamente em praticamente todas as ações e diligências que ocorreram durante esses anos.

Vamos explorar a questão dos abusos mais adiante. Quero primeiro discutir a eleição. Muitos acreditavam que o Patriarca de Lisboa poderia ser eleito presidente da Conferência Episcopal, dado que tradicionsmente isso ocorre em Portugal. O fato de termos, consecutivamente, dois bispos de dioceses fora de Lisboa sinaliza um fim dessa tradição e uma democratização do episcopado em Portugal?

Essa tradição é um costume que pode ser influenciado por várias circunstâncias e reflete o respeito que todos temos pelo Patriarca de Lisboa. Desta vez, a escolha foi diferente e, de certo modo, representa a vontade dos bispos portugueses. Não sei ao certo o porquê, mas é o que ocorreu. Agora, devemos avançar com a missão que nos foi confiada.

Quais são as prioridades pessoais que você traz para a Conferência Episcopal? Em que aspectos deseja deixar sua marca?

Com 15 anos como bispo na Diocese de Coimbra, sou moldado por esse lugar e pela tradição local. Sempre procurei focar na evangelização do mundo; esse foi meu lema ao ser consagrado bispo. O objetivo é sempre chegar mais longe com a mensagem do Evangelho, considerando as circunstâncias atuais. A Diocese de Coimbra reflete a realidade da Igreja em Portugal, e vivemos um período onde o anúncio do Evangelho é essencial, especialmente em um mundo cada vez mais secularizado.

Como você vê a relação entre a fé pessoal e a identificação religiosa?

Há muitos que acreditam em Deus e se sentem culturalmente ligados ao cristianismo, mas que não se identificam com a instituição da Igreja. Isso é uma realidade compartilhada em Portugal e na Europa, mas o cristianismo deve estar intimamente ligado à vida da Igreja. Esse é um grande desafio.

Como biblista, você acredita que o Evangelho precede as normas estabelecidas nas doutrinas da Igreja?

Sim, é verdade, mas conciliar o Evangelho e a ética com as realidades do dia a dia é complicado. A fé em Deus pode ser mais facilmente aceita do que a identificação com uma religião específica, e a Igreja precisa ser honesta sobre esse desafio.

Você gostaria de ver a Igreja se afastar do foco excessivo em normas e regras?

Eu vejo a Igreja como um corpo que possui muitas faces e a essência da mensagem de Cristo deve ser sua prioridade. Contudo, em muitos momentos, a Igreja pode não ter estado à altura do Evangelho, priorizando regras que, às vezes, obscurecem a mensagem essencial. A Igreja deve sempre refletir sobre seu papel neste sentido.

Gostaria de discutir a questão dos abusos, um tema que impactou a Igreja de maneira profunda. A Igreja foi elogiada pela criação de uma comissão independente em 2021, mas a partir de uma conferência de imprensa em março de 2023, as coisas parecem ter se complicado. Naquele dia, foi explicitado que a Igreja tinha recebido uma lista de nomes de padres acusados. Havia um plano para o que fazer quando o relatório fosse entregue?

Nós já tínhamos uma noção clara sobre a proteção dos menores, mas um plano completo talvez não existisse. O trabalho foi evoluindo conforme as circunstâncias, e o relatório da comissão revelou dimensões do problema que não esperávamos.

E isso pode ter passado a impressão de que a Igreja estava improvisando?

Não, nós não estávamos improvisando. Desde o início, estabelecemos um plano de proteção das vítimas e continuamos a trabalhar nesse sentido. Naturalmente, surgiram pontos de vista divergentes sobre a abordagem adotada, mas o compromisso de avançar com o processo permaneceu.

A Igreja teve várias controvérias, especialmente em relação a compensações financeiras e a percepção de revitimação durante o processo. É inegável que a Igreja perdeu um capital de confiança, que tinha ganho anteriormente.

É verdade. É fundamental que a Igreja continue a ser confiável, mas o principal objetivo é lutar contra os abusos, não necessariamente buscar a confiança das pessoas. Algumas pessoas podem ter perdido a confiança, mas outras podem ter a ganho por ver a Igreja tentando lidar adequadamente com a situação. O problema da transparência em relação aos abusos é crítico.

Uma crítica frequente é que a Igreja, ao criar a comissão independente, quis mostrar-se atenta, mas após o relatório, pareceu que houve pressa em seguir adiante.

Nós seguimos em frente, mas é um processo complexo que sempre exige tempo para ser implementado corretamente. O compromisso com as compensações para as vítimas é uma preocupação séria e um sinal do desejo de avançar com responsabilidade.

A questão dos cortes nas compensações foi a mais polêmica e ainda não foi completamente explicada. A Igreja está em posição de esclarecer por que contratou uma comissão de juristas, que recomendou valores que depois foram reduzidos?

A comissão fez um trabalho minucioso, e as compensações que foram sugeridas consideraram muitos fatores. Dizer que houve um “corte” é simplificar a situação. O que fomos além ficou muito acima do que se pratica em outros países da Europa.

Esses novos casos que estão por analisar, como vão ser tratados?

Estamos em processo de análise, e uma nova comissão foi formada para lidar com esses casos especificados, seguindo os critérios estabelecidos. Queremos ser justos e coerentes.

Quanto a gastos, a Igreja já investiu bastante nesse processo, certo?

Sim, os gastos com a comissão e com o grupo Vita, além das compensações, já ultrapassam os dois milhões de euros.

Em relação à sua eleição, pode ser vista como um sinal de que os bispos desejam continuar o trabalho realizado na direção anterior em relação aos abusos?

A nossa intenção não é “fechar dossiês”, essa situação continuará em aberto, pois esse é um assunto que requer atenção constante. O objetivo é continuar o trabalho de prevenção e acolhimento das vítimas.

Esses mecanismos de prevenção serão centralizados nas comissões diocesanas?

A estrutura das comissões diocesanas será fundamental, mas estamos abertos à discussão sobre como organizar esse trabalho no futuro. A questão central é encontrar a melhor forma de acolher denúncias.

Ainda assim, isso não pode ir de encontro ao combate ao clericalismo que você mencionou como prioridade.

Essa é uma discussão central, com diferentes opiniões. Alguns acreditam que uma entidade externa é necessária, mas outros defendem que as comissões diocesanas podem cumprir essa função de forma adequada.

Para encerrar este tema, gostaria de abordar a recente encíclica do Papa sobre a inteligência artificial, “Magnifica Humanitas”. Com um novo papa e os desafios contemporâneos, como isso influenciará o seu mandato?

O que importa é que a Igreja continue seu trabalho, engajando-se com a sociedade. O Papa Leão XIV, ao abordar a inteligência artificial, está reconhecendo a necessidade de reflexão sobre essa transformação antropológica e como isso impacta a dignidade humana.

As instituições religiosas, como a Igreja Católica, possuem um papel importante nesse novo cenário?

As comunidades religiosas devem assegurar que a dignidade humana seja sempre respeitada, orientando o uso da tecnologia em favor do bem-estar e da paz da humanidade.

O Papa parece estar adotando uma postura mais aberta para lidar com a tecnologia e seus impactos.

Sim, a Igreja está mais atenta aos desafios contemporâneos, reconhecendo que pode encontrar oportunidades nesses desafios. O caminho não pode ser apenas técnico, mas deve levar em conta a centralidade do ser humano.

Já não estamos em uma época de resiliência da Igreja; há um crescente interesse espiritual, principalmente entre os jovens, apesar da secularização. Como você interpreta esse momento?

O século XXI pode ser um tempo de redescoberta espiritual e a Igreja precisa estar atenta a isso, encontrando formas de se conectar com as novas gerações e suas necessidades de sentido e comunidade.

Esse interesse renovado por espiritualidade pode ter ligação com a radicalização política que observamos atualmente?

Os jovens estão buscando significado em suas vidas e às vezes se identificam com grupos que podem não refletir a mensagem cristã. A Igreja deve ser um espaço de acolhimento para todos.

Internamente, a polarização parece estar presente. A Igreja em Portugal é homogênea, mas há tensões que podem surgir à medida que as ideias se diversificam.

É uma realidade. A Igreja deve encontrar caminhos para a unidade, independentemente das divergências, conforme o Papa Leão XIV propõe em sua nova liderança.

Temas complexos como a ordenação de mulheres e a aceitação de casais homossexuais estão na mesa, mas é necessário abordar esses assuntos com cuidado, evitando rupturas.

Todo este processo desses temas controversos será debatido na Igreja, mas levando em conta que a tradição também é um elemento importante a ser considerado.

Recentemente, o presidente da República convidou o Papa Leão XIV para visitar Portugal no próximo ano. Esse convite foi articulado com a Igreja?

Sim, já havia uma carta anterior enviada ao Papa, convidando-o a visitar Portugal, e foi muito bom que o presidente tenha feito isso.

Quando se concretizará essa visita?

Espero que seja no próximo ano, mas isso depende da agenda do Papa. Certamente, quando vier será uma ocasião especial e muito desejada por todos.

Dom Virgílio Antunes, bispo de Coimbra e recentemente eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, agradeço por ter estado conosco no “Sob Escuta” da Rádio Observador.

Eu que agradeço a oportunidade.

ondaCoimbra.pt
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