Um M&A com Fundamentos Sólidos

Um M&A com Fundamentos Sólidos

Atualmente, estamos diante de um mercado de fusões e aquisições que, embora menos exuberante, se destaca pela racionalidade, seletividade e, possivelmente, por ser mais saudável e sustentável.

O cenário económico, político e tecnológico atual difere significativamente do que vivíamos há uma década e até mesmo dos anos imediatamente posteriores à pandemia, em 2021 e 2022. A atividade recente de M&A reflete essa nova realidade, com investidores se tornando mais exigentes em suas busca e cautelosos nas decisões que tomam, apesar dos altos níveis de liquidez que ainda possuem. Atraem os investidores estratégias bem definidas, robustez no contexto competitivo e tecnológico, estruturas de gestão sólidas e perspectivas de crescimento. Essa interação entre oferta, demanda e o contexto macroeconómico resultou em um mercado de M&A menos exuberante que no passado, mas ainda assim bastante ativo.

Na Europa, dados de plataformas como o Mergermarket indicam uma desaceleração no número de transações, com 2025 prometendo um leve retrocesso em comparação aos últimos três anos. Taxas de juros elevadas, incerteza macroeconómica, tensões geopolíticas e evolução tecnológica têm trazido maior precaução e seletividade por parte dos investidores. O resultado é a diminuição na frequência e uma maior demora nos mega deals, reestabelecendo o foco na análise detalhada e nos comitês de investimento.

Curiosamente, Portugal tem exibido uma narrativa um pouco diferente. Entre 2022 e 2025, conforme relatório do Mergermarket, o número de operações cresceu de maneira consistente, ainda que a um ritmo progressivamente mais lento. Embora não se trate de grandes negócios, o mercado é dinâmico, dominado por transações de menor valor — muitas abaixo dos 10 milhões de euros — que refletem a estrutura do tecido empresarial português. No M&A, como na vida, o tamanho é relevante, mas não é tudo. No entanto, em 2025, aproximadamente 30% das transações registradas tinham valores superiores a 50 milhões de euros.

Setorialmente, poucas surpresas surgem. Os setores de Consumo, Tecnologia, Mídia e Telecomunicações (TMT) e Indústria continuam a liderar tanto em Portugal quanto na Europa, concentrando a maior parte das transações realizadas. No mercado nacional, esses três setores representam cerca de 70% do total de deals, com destaque para o dinamismo do TMT e o crescimento sustentável da Indústria. Embora a energia não figure como líder em operações, continua a se destacar em termos de valor, conforme evidenciam os rankings disponíveis.

Outra tendência clara é o crescente destaque do private equity. Nos últimos anos, investidores financeiros ganharam relevância em função da diminuição do papel dos investidores estratégicos, especialmente em transações até 20 milhões de euros. Esse fenômeno é um reflexo natural de fundos mais ativos, com dry powder acumulado e uma capacidade maior para estruturar operações complexas. Contudo, o perfil predominante de investidor continua sendo o estratégico.

Portugal mantém-se como um mercado fortemente cross-border. Investidores estrangeiros desempenham um papel central, com Espanha, França e Reino Unido como as principais origens. Na Europa, a situação é distinta: os grandes mercados tendem a favorecer operações domésticas, reforçando a ideia de que o M&A é frequentemente uma questão de escala.

Assim, estamos diante de um cenário de M&A menos exuberante, mais racional e seletivo, mas potencialmente mais saudável e sustentável. Os fundamentos continuam presentes: empresas buscando crescer, consolidar ou transformar; fundos com capital para investir; e setores inteiros se reposicionando em face de novas exigências tecnológicas, de sustentabilidade e regulatórias. Com estes fundamentos, potencialmente acompanhados por uma redução dos níveis de incerteza, as perspectivas são de crescimento sustentado para a atividade de M&A, resultando em mais histórias de sucesso na criação e desenvolvimento de negócios, na monetização do valor gerado e na transformação e consolidação do nosso tecido empresarial.

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