Urgência no Setor Têxtil: Ações Necessárias para Evitar Aumento de Falências e Despedimentos

Urgência no Setor Têxtil: Ações Necessárias para Evitar Aumento de Falências e Despedimentos

O fim do verão aproxima-se com notícias preocupantes para o setor têxtil e do vestuário. Nos últimos dias, diversos grupos anunciaram o fecho de fábricas, planos de revitalização e o despedimento de centenas de trabalhadores. Associações da indústria sinalizam a necessidade de medidas urgentes para que as empresas possam reestruturar seus negócios e preservar as unidades produtivas, reconhecendo que a crise no setor ainda está longe de ser resolvida.

O grupo Polopiqué surpreendeu ao implementar um profundo plano de reestruturação para concentrar suas atividades nas unidades mais rentáveis. De acordo com informações do ECO, o plano inclui o encerramento de duas unidades de produção – Polopiqué Tecidos e Cottonsmile – assim como a reestruturação da dívida com os bancos e a venda de ativos. O grupo, que conta com cerca de 800 empregados, está a iniciar um Processo Especial de Revitalização (PER) para as sociedades Polopiqué Comércio e Indústria de Confeções S.A. e Polopiqué – Acabamentos Têxteis S.A., e esse processo resultará, nesta fase, na redução de 280 postos de trabalho.

A J.F. Almeida e a StampDyeing também solicitaram revitalização judicial. A StampDyeing, parte do grupo Mabera – Coelima, está sem gás desde junho por falta de pagamento, permanecendo sem produção desde então. A expectativa era de que a empresa voltasse à atividade na semana passada, mas ao retornarem de férias, cerca de 100 trabalhadores encontraram as portas fechadas, conforme confirmou ao ECO Francisco Vieira, dirigente do Sindicato Têxtil do Minho e Trás-os-Montes.

Atualmente, os problemas enfrentados por esta empresa de tinturaria e estamparia estão restritos a essa unidade. Segundo informações do ECO, a histórica Coelima, adquirida pelo grupo Mabera em 2018, continua operando sem restrições e com os salários em dia.

Os relatos de empresas enfrentando dificuldades se multiplicam, com algumas tentando reativar suas operações através de planos de revitalização e reestruturação da dívida, enquanto outras não retomaram a produção após as férias. Esse foi o caso da Têxtil Passos, localizada na freguesia do Bonfim, no Porto, que deixou um grupo de funcionárias surpresas ao encontrar a empresa com portas fechadas.

“Para enfrentar esta crise, é essencial que o Governo e a União Europeia adotem medidas rápidas e concretas: um lay-off simplificado para ajudar a regular a mão-de-obra durante períodos de baixa demanda, instrumentos de apoio à tesouraria e medidas mais flexíveis para o ajuste das empresas. Além disso, são necessárias medidas rigorosas contra a concorrência desleal, como o fim dos regimes de minimis, a aplicação de taxas específicas ao ultra fast fashion e uma fiscalização mais rigorosa no mercado interno europeu”, defende Ana Dinis, diretora-geral da Associação Têxtil de Portugal (ATP).

É provável que surjam mais empresas com Processos Especiais de Revitalização (PER), despedimentos ou insolvências, visto que as pressões atuais são intensas e a situação já se prolonga por um período considerável — e é complicado para as empresas resistirem sem medidas de apoio eficazes.

“Temos conhecimento de outras empresas que estão a enfrentar problemas e buscando soluções para se manterem no mercado”, acrescenta a representante da associação, observando ao ECO que não há como “divulgar números ou nomes” neste momento, nem “avaliar quantos postos de trabalho poderão ser eliminados”.

De acordo com o mais recente Inquérito à Atividade Empresarial da ATP, realizado na primeira metade do ano, 23% das empresas mencionaram que poderiam recorrer a mecanismos de lay-off no segundo semestre, e 4% já estavam fazendo isso. “Esse dado revela que as empresas buscam alternativas para preservar empregos e manter suas atividades, mesmo em um contexto tão desafiador”, contextualiza Ana Dinis.

A porta-voz da ATP reconhece que “é normal que mais empresas acessem Processos Especiais de Revitalização (PER), enfrentem despedimentos ou cheguem à insolvência, dado que as pressões atuais são intensas e a situação já se estende por um longo tempo — e as empresas têm pouca chance de sobreviver sem apoio eficaz”.

O presidente da Associação Nacional da Indústrias de Vestuário e Confeção (ANIVEC), César Araújo, também defende que é preciso “criar mecanismos de reestruturação das empresas e aliviar a tesouraria” para ajudar o setor neste momento difícil. “É necessário converter o financiamento de curto prazo em longo prazo, a 10 anos, para dar tempo às empresas buscarem novas encomendas”, acrescenta ele.

“As empresas precisam se reestruturar, e isso só será viável com o PER”, defende César Araújo, ressaltando que “deve existir um lay-off simplificado para permitir que as empresas captem encomendas”. “Essas são medidas urgentes. Precisamos de uma solução rápida”, afirma o presidente da associação, resumindo que “é necessário um alongamento da dívida, mecanismos de reestruturação com a segurança social e o lay-off simplificado.”

É necessário criar mecanismos de reestruturação das empresas e aliviar a tesouraria. Para isso, o financiamento deve passar de curto para longo prazo, a 10 anos, para dar tempo às empresas para arranjarem mais encomendas.

As associações do setor atribuem a atual crise a dois anos de diminuição de encomendas, causados pelo abrandamento nos principais mercados – Alemanha e França –, em um período também caracterizado pelo crescimento das vendas de baixo custo. Plataformas como a Shein ou a Temu têm intensificado essa competição. Uma concorrência considerada desleal, já que essas encomendas estão isentas de impostos e taxas, competindo diretamente com a indústria local, que é sujeita a regras rigorosas de legislação europeia.

“A Europa destruiu seu mercado, abriu as portas e estamos testemunhando a maior fraude fiscal do século XXI”, afirma César Araújo, presidente da ANIVEC. “Mais de 100 bilhões de euros estão fora de controle alfandegário, representando uma das maiores fugas fiscais da história”, complementa.

“Isso resulta em uma diminuição do comércio local. Não afeta apenas as fábricas, mas também as lojas e marcas de rua.”, justifica ele, enfatizando que o setor está sendo severamente penalizado pela “persistência destas empresas de fast fashion”. “Não se baseia em um mercado justo”, completa.

César Araújo destaca que a Europa “desinvestiu” na indústria, que a China “está muito à frente” e nota que isso é um “problema europeu”. Diante do que caracteriza como “concorrência desleal”, a ANIVEC levou uma ação à Procuradoria Europeia no dia 20 de agosto, buscando o fim dos minimis [pacotes de baixo valor] e do Sistema de Preferências Generalizadas (SPG) da União Europeia, além de exigir reciprocidade nas trocas comerciais.

“Estamos observando um crescimento massivo do modelo de ultra fast fashion, associado a uma completa falta de regras, indicando fraude fiscal, criando sérias distorções no mercado e uma total inação das autoridades europeias e nacionais”, confirma Ana Dinis. “As recentes tarifas impostas pela administração Trump agravaram a situação: enquanto dificultaram o acesso dos nossos produtos ao mercado americano, geraram desvios logísticos, fazendo com que muitos concorrentes — principalmente asiáticos — redirecionassem sua produção para a Europa”, detalha.

Como resultado? “Uma inundação do mercado europeu — nosso principal destino de exportações — com produtos baratos, muitas vezes de qualidade e segurança questionáveis, altamente subsidiados, frequentemente em condições de dumping social e ambiental, desrespeitando regras de concorrência e envolvendo fraude fiscal que prejudica todos os consumidores europeus”, responde.

“As empresas portuguesas, que investiram significativamente em sustentabilidade, circularidade e digitalização, estão enfrentando desafios ainda maiores, pois estão arcando com custos financeiros elevados provenientes desses investimentos, que agora têm dificuldades em amortizar neste contexto de contração e concorrência desleal”, justifica.

Entre janeiro e junho de 2025, as exportações do setor têxtil e do vestuário totalizaram 2,79 bilhões de euros, representando uma queda de 1,3% em relação ao mesmo período de 2024, que já havia visto uma redução de 3,9% em relação a 2023. “Estamos diante de dois anos consecutivos de declínio”, observa Ana Dinis.

O recente inquérito da ATP revela que 66% das empresas reportaram queda no volume de negócios e 67% registraram diminuição da produção no primeiro semestre. Além disso, 65% esperam nova redução do volume de negócios na segunda metade do ano. “Esses indicadores indicam que a tendência negativa não é pontual, mas prolongada. Sem uma reversão da demanda ou medidas de apoio efetivas, 2025 dificilmente conseguirá retornar aos níveis de 2023”, analisa a diretora-geral.

Apesar do cenário desafiador, a porta-voz da ATP ressalta que “o setor português mantém capacidade de inovação, diferenciação e internacionalização”. “O que solicitamos é um enquadramento político e econômico que permita transformar essa resiliência em crescimento sustentável”, conclui.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião relevante, às reportagens e especiais que oferecem uma visão diferenciada da realidade.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e confiável.

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ondaCoimbra.pt
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.