A audiência mais emotiva da Comissão Parlamentar de Inquérito ao INEM ocorreu recentemente, quando a viúva de Sérgio Abreu, homem de 53 anos que faleceu em Pombal em novembro de 2024, prestou seu depoimento. Sérgio morreu após esperar quase duas horas pelo socorro do INEM. Durante aproximadamente uma hora, Carla Rocha detalhou a sequência de eventos que resultaram na morte de seu marido, criticando a atitude dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que aparentemente desconsideraram a gravidade do caso, e lamentou as conclusões da investigação do Ministério Público. Ela fez um apelo à ministra da Saúde por esclarecimentos.
“Perdi meu marido em um dia de greve do INEM, em uma greve de funcionários que têm a missão de salvar vidas […] É de se lamentar a postura dos técnicos de emergência pré-hospitalar e do médico regulador, que, diante da informação que tinham, não agiram conforme as exigências legais ou suas funções. Foi uma atitude inadequada, inadmissível e reprovável”, declarou Carla Rocha aos deputados, antes de ler uma transcrição de uma gravação do CODU, na qual um dos técnicos faz brincadeiras a respeito da situação de emergência, mencionando que ele mesmo estaria prestes a ter um ataque cardíaco devido ao grande volume de chamadas.
Sérgio Abreu faleceu em casa em 4 de novembro de 2024, depois de sofrer um infarto agudo do miocárdio. Após esperar mais de 50 minutos por socorro, Carla Rocha decidiu levá-lo em seu próprio carro até o Serviço de Urgência Básico de Pombal. No entanto, durante o percurso, Sérgio não resistiu e faleceu nos braços dela. “Ele partiu dentro de uma carrinha”, disse Carla, visivelmente emocionada. O apoio do INEM chegou apenas uma hora depois.
De acordo com o relatório da Inspeção Geral das Atividades em Saúde sobre o caso, a morte de Sérgio poderia ter sido evitada, uma vez que o socorro não foi prestado “num tempo mínimo e razoável”. A investigação concluiu que a vítima teria chances de sobrevivência se tivesse sido transferida “através de uma Via Verde Coronária para um dos hospitais mais próximos, onde poderia ser submetido a angioplastia coronária”.
A IGAS também criticou o médico regulador do Centro de Orientação de Doentes Urgentes de Coimbra, sugerindo que a morte pode estar relacionada com “falta de zelo, cuidado e diligência” dos profissionais envolvidos no socorro a Sérgio Abreu, que deverão enfrentar processos disciplinares do INEM. Segundo o relatório final, esses profissionais “não atuaram de acordo com as boas práticas da emergência médica” e não demonstraram a agilidade e eficiência necessárias na triagem e despacho de recursos.
“O Sérgio morreu porque nem sequer teve chance de socorro”, lamentou Carla Rocha, emocionada, durante sua intervenção inicial. “Se o Sérgio tivesse recebido ajuda em tempo hábil, como afirma o relatório da IGAS, eu não estaria aqui falando por ele”, destacou, acrescentando que a greve foi a razão pela qual seu marido faleceu. “Assisti a tudo desde o primeiro momento.”
Antes de sofrer o infarto, Sérgio Abreu era “saudável” e “fisicamente forte”. Carla Rocha pediu justiça pela morte do seu companheiro. “Venho implorar que se faça justiça e que se apurem responsabilidades. Este infortúnio transtornou nossas vidas. A minha e a dos pais dele, que são idosos.” Ela enfatizou: “Roubaram nosso amor. Quero responsabilidades e que a justiça seja feita”, confessando aos deputados o vazio emocional que sente desde então.
“Não tenho palavras para descrever o vazio que se instalou na minha vida, a tristeza que carrego todos os dias”, lamentou Carla Rocha, criticando a falta de apoio psicológico do INEM, instituição que, segundo ela, nunca a contatou para se solidarizar pela morte do marido. “É lamentável, o INEM nunca me procurou”, afirmou.
Ela também criticou a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, por não garantir serviços mínimos durante a greve e por ter chegado a um acordo com os técnicos de emergência apenas após a paralisação, que resultou em “12 mortes”. “Gostaria que a senhora ministra, ou alguém em seu nome, me explicasse como é possível permitir uma greve sem serviços mínimos, sabendo que isso pode causar mortes”, questionou a viúva de Sérgio Abreu, acrescentando outra dúvida: “Por que deixaram morrer 12 pessoas para que um acordo fosse feito posteriormente?”.
Carla Rocha ainda expressou sua insatisfação em relação às conclusões do Ministério Público, que não apontou responsabilidades criminais no caso. “Não consigo entender a decisão de arquivamento do Ministério Público. Não sei o que mais precisa ser provado, temos o relatório da IGAS que é claro. O MP desvaloriza ou relativiza uma conclusão técnica que é categórica”, lamentou.
