É um dos desafios mais difíceis nas campanhas: conseguir os rascunhos dos discursos que os candidatos utilizam antes de cada intervenção. Muitos deles hesitam em compartilhar esses materiais, mas há exceções, como André Ventura, líder do Chega, que é conhecido por improvisar e raramente usar um suporte escrito.
O Observador teve acesso ao lado menos visível das campanhas, explorando como cada candidato estructura os tópicos que pretende abordar e como organizam suas mensagens para os apoiantes e potenciais eleitores. As surpresas vão além do conteúdo dos discursos — incluem também as ferramentas físicas que cada um utiliza, seja por escolha ou improviso, durante as falas.
Durante a campanha, um candidato adquiriu bilhetes de loteria em vários locais que visitou, como em Gavião numa manhã de sexta-feira. Ele pediu “tire-me aí a loteria” à empregada enquanto tomava café e guardou a bilheteira no bolso. Apesar de não ter premiado, serviu como suporte para anotações do discurso da noite.
Os comícios geralmente contam com três intervenções: duas breves, uma do mandatário distrital e outra de uma figura local, e uma mais extensa do candidato. Com tantos discursos ao longo da campanha, o essencial já está na mente dele, mas sempre faz anotações rápidas onde puder, o que em uma ocasião levou-o a usar o bilhete de loteria.
Essas anotações mostraram-se insatisfatórias, pois ele improvisou bastante durante o discurso, interagindo com o público e pedindo que expressassem suas preocupações. Os apoiantes gritaram diversas coisas, até críticas ao governo e questões sobre a Constituição. O candidato apenas tinha três linhas e uma lista de nomes, mas conseguiu articular suas ideias durante a fala.
Um dos comentários vinham do público pedindo para “pôr o Governo para fora”, o que gerou risadas e foi aproveitado pelo candidato para reafirmar sua posição. “Não serei um Presidente de facção ou partidário. Nem mesmo um primeiro-ministro sombra. Estou aqui para resolver os problemas dos portugueses e para ser o Presidente de todos.”
Essa estratégia reflete o compromisso do candidato em não interferir no trabalho do Executivo, visando manter uma imagem de estabilidade. Ele propôs incentivos na área da saúde, sem atacar diretamente o Governo, evitando afastar eleitores desta frente.
Outra questão anotada foi sobre os motivos que o trouxeram de volta à corrida dez anos depois. Quando o público pediu a sua opinião sobre “correr com o Ventura”, ele não hesitou em falar sobre o “combate aos extremismos”, argumento que usa como justificativa para o seu retorno.
Além disso, ele enfatizou a diferença entre sua campanha e a de seus adversários. “Estamos por um lado, enquanto que de outro lado temos a lama”, referindo-se à natureza negativa das campanhas dos concorrentes. Ele tem se posicionado como alguém que deseja elevar o debate, evitando confrontos diretos, mas frequentemente lançou críticas sutis a outros candidatos conforme a situação exigia.
A promessa de “mudança tranquila” foi outro ponto alto em seu discurso, apresentando-se como alguém capaz de melhorar o que está bom e mudar o que está mal. Ele rejeitou qualquer sugestão de que sua candidatura significaria uma continuidade dos problemas.
O candidato pediu atenção a seus apoiantes, agradecendo nominalmente a cada um, incluindo seu mandatário distrital e outros nomes relevantes, como Isabel Pedroto. Ao mesmo tempo, buscou distanciar-se ideologicamente do PS, mesmo sabendo que o partido fornece um suporte estrutural importante em sua campanha. Essa estratégia visava conquistar eleitores que possam ser relutantes em se identificar com uma sigla específica.
Por outro lado, Cotrim Figueiredo, do partido Liberal, mostrava-se mais formal em sua abordagem, utilizando um papel organizado com tópicos e outros pontos marcantes, como uma crítica política a respeito de Passos Coelho. Essa crítica foi uma resposta a um ataque recebido em debates.
Cotrim Figueiredo focava num “tom sereno”, com sua equipe definindo que o discurso deveria ter cerca de 20 minutos. Durante a sua fala em Lisboa, fez questão de ressaltar a ausência de propostas novas, posicionando-se como a alternativa dinâmica em contraste com outros candidatos que ele considerava “falsos”. O estigma de “voto útil” foi uma estratégia adotada visando limitar a escolha dos eleitores.
O candidato também referiu a necessidade de um aumento nos salários, uma questão premente em sua plataforma, assim como os perigos da legislação laboral que estava em debate. Ele usava argumentos sobre a inutilidade do voto em candidatos como Ventura, que, segundo ele, poderiam levar à reeleição de Seguro.
Catarina Martins, por sua vez, utilizou um caderno que serve mais como um guia mental do que um suporte rígido de anotações, diálogos e referências a questões sociais urgentes. A eurodeputada falou sobre “a crise das crises”, referindo-se à questão da habitação e suas repercussões nos serviços públicos.
Martins também frisou a necessidade de se unir contra a onda de “política do ódio” que, segundo ela, se espalhou até Portugal, levantando críticas a figuras políticas tanto locais quanto internacionais. Formulou um apelo ao “voto por convicção”, querendo galvanizar o eleitorado de esquerda.
A não participação em atividades relevantes, como a greve geral, foi algo a ser observado com preocupação, referindo-se diretamente a adversários que, segundo ela, se abstiveram de se posicionar em momentos críticos.
Jorge Pinto, por fim, buscava reafirmar sua candidatura, reiterando a defesa do SNS como uma conquista fundamental da democracia e destacando temáticas como a proteção da Constituição. Ele se apresentou como alguém visionário, mirando mudanças que refletissem mais ambição e menos conformismo, pedindo a oportunidade de ser uma VOZ ativa na política, visando acabar com a “lamura” do debate político contemporâneo.
Ao longo de sua campanha, Pinto insistiu que o futuro da esquerda estava guardado no seu projeto, chamando a atenção do público para novas abordagens sem medo de reconhecer que os resultados eleitorais poderiam não ser favoráveis.
