Nova Conferência Europeia: Entre Aplausos e Críticas, As Palavras de Von der Leyen no Discurso da União

Nova Conferência Europeia: Entre Aplausos e Críticas, As Palavras de Von der Leyen no Discurso da União

A presidente da Comissão Europeia fez hoje, pela primeira vez durante o seu segundo mandato, o discurso sobre o Estado da União, num momento em que enfrenta críticas relacionadas com o acordo comercial com os Estados Unidos e sua posição acerca de Gaza. O discurso de Ursula von der Leyen foi marcado por um incidente inesperado: na madrugada de hoje, a Polónia entrou em estado de alerta após suas forças militares terem abatido “objetos hostis” que invadiram o espaço aéreo do país.

Em resposta a esta situação, von der Leyen afirmou: “a Europa vai defender cada centímetro do seu território”.

Antes de abordar questões comerciais e temas como tecnologia, futuro e economia, Ursula von der Leyen concentrou grande parte do seu discurso em desafios geopolíticos, numa intervenção que recebeu muitos aplausos, mas também interrupções, especialmente no que toca a Gaza, enfatizando que, neste momento, a Europa precisa mais do que nunca de se unir ou “re-unir”.

“A Europa está numa luta. Numa luta por um continente completo e em paz, por uma Europa livre e independente, uma luta pelos nossos valores e pelas nossas democracias, uma luta pela nossa liberdade e pela capacidade de decidirmos o nosso próprio destino”, começou por dizer.

“Não se deixem enganar: esta é uma luta pelo nosso futuro”, garantiu, admitindo que hesitou em iniciar o discurso com uma avaliação tão “rígida”, já que a União Europeia é, fundamentalmente, “um projeto de paz”. Contudo, “não podemos simplesmente esperar que esta tempestade passe”.

“Este verão mostrou-nos que não há espaço nem tempo para nostalgia”, defendeu, assegurando que “as linhas de batalha” da nova ordem mundial estão a ser traçadas agora e são “baseadas no poder”. “Por isso, sim, a Europa tem de lutar“, ressaltou, sublinhando que vivemos num mundo onde várias potências não têm clareza sobre o que pensar da UE ou são “abertamente hostis”. Vivemos num “mundo de ambições imperialistas e guerras imperialistas”, onde as dependências são “impiedosamente usadas como arma”.

“É por isso que uma nova Europa deve emergir”, disse, apelando para que este seja o momento da “independência da Europa” e sublinhando a importância da União Europeia em assegurar “a sua própria segurança”.

“A pergunta central para nós hoje é simples: a Europa tem estômago para lutar?”, questionou, convocando “união entre os Estados-membros, instituições e forças democráticas”.

No discurso, fez referência a uma família ucraniana – presente no hemiciclo – para enfatizar a necessidade da Europa lutar contra “a definição de diplomacia da Rússia”, no contexto da “Coligação de Vontades”.

Nesta nova “guerra de drones”, a UE adota agora uma “aliança de drones com a Ucrânia”, um anúncio que ocorre algumas horas após a violação do espaço aéreo polaco por “objetos hostis”. Ao comentar o incidente ocorrido na Polónia, von der Leyen afirmou que é uma violação “sem precedentes” do espaço aéreo europeu e uma ação “imprudente”.

“A Europa está solidária com a Polónia”, destacou, gerando uma onda de aplausos no hemiciclo. Em seguida, declarou que, se “a mensagem de Putin é clara”, a da Europa também deve ser. “Esta guerra é da Rússia. A Rússia deve pagar por ela”, afirmou, explicando que há um esforço em andamento para desenvolver uma “nova solução” que permita utilizar os ativos russos sob controle europeu para ajudar na reparação da Ucrânia.

Em francês, continuou: “A guerra económica de Putin continuará mesmo que a guerra termine”, pedindo que se assegure a segurança da Europa em todos os fronts.

“A Europa vai defender cada centímetro do seu território”, reiterou. Retornando ao inglês, reafirmou que lutar agora é defender a liberdade de “escolher o nosso próprio destino”, destacando que os ideais europeus que surgiram com a queda do muro de Berlim, em 1989, são ainda mais relevantes agora, juntamente com a Ucrânia e todos aqueles que queiram se juntar. “Vamos trazer os futuros membros para junto da nossa União”, declarou, apoiando “reformas” e “integração no mercado único”.

“Temos de acelerar este processo de adesão baseado no mérito”, frisou, argumentando que apenas uma “Europa unida” – ou “reunida”, como enfatizou – pode ser independente. “Uma união maior e mais forte é uma segurança para todos nós”, pontuou, referindo-se à Ucrânia, Moldova e Balcãs, garantindo que seu futuro está atrelado à União. “Vamos realizar juntos a próxima reunificação da Europa”.

A situação em Gaza também foi abordada no discurso da presidente da Comissão Europeia. Num momento em que “a consciência do mundo” está “sobressaltada” com as “imagens catastróficas” de pessoas “mortas enquanto imploram por comida” e de “mães segurando bebés sem vida”, von der Leyen interpretou os acontecimentos em Gaza como uma representação da “mudança inaceitável” nas relações internacionais que ocorreu nos últimos meses.

“Quero deixar uma mensagem muito clara: fome criada por mão humana nunca pode ser uma arma de guerra”. “Pelo bem das crianças e da Humanidade, isto tem de parar”, reiterou, sob aplausos.

Para von der Leyen, não há dúvidas de que vários ministros israelitas estão a fazer de tudo para “minar” a solução de dois Estados, algo que “não podemos permitir que aconteça”.

<p"Diante disso, a Europa precisa de fazer mais", voltou a insistir Ursula, lamentando a falta de uma maioria favorável que aprove medidas mais significativas e notando que alguns membros da UE têm atuado "sozinhos".

“Não nos podemos dar ao luxo de ficar paralisados”, enfatizou novamente. Seguindo em frente com “todas as medidas” que a Comissão Europeia pode implementar “por conta própria”, a Europa decidiu colocar “em pausa” o “apoio bilateral a Israel”. “Vamos interromper todos os pagamentos em áreas que não afetem a sociedade civil israelita”, explicou, ao avançar com duas propostas de sanções aos ministros “extremistas” de Netanyahu e à suspensão parcial do “acordo de associação em questões comerciais”. Essas propostas foram recebidas com aplausos e apupos, que von der Leyen não ignorou.

“Estou ciente de que será difícil encontrar maiorias”, comentou, dizendo que, quando as iniciativas podem parecer “demasiado” para uns e “muito pouco” para outros, todos devem lembrar de sua própria “responsabilidade”.

Um grupo de “doadores para a Palestina” também será criado em breve, com o objetivo de apoiar a reconstrução de Gaza, assegurou, em um “esforço internacional com parceiros na região” para garantir que aquilo que a Europa “sempre defendeu”, uma “solução de dois Estados”, realmente se concretize.

Após assumir, em dezembro, o cargo de líder do executivo comunitário para mais um mandato de cinco anos, Ursula von der Leyen fez, em Estrasburgo, o tradicional discurso anual perante os eurodeputados, seguido por um debate.

Antes, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, falou sobre “tempos sem precedentes”, onde a Europa precisa de “claridade e determinação”.

“Precisamos de uma Europa que se responsabilize pela sua segurança”, admitiu Metsola. “Precisamos de uma Europa onde as ruas sejam seguras para os nossos filhos e que defenda os valores democráticos que nos definem”, acrescentou, durante um discurso proferido antes do de von der Leyen.

“Quando o mundo parece estar a arder, com a agressão russa à Ucrânia e a situação devastadora em Gaza, este Parlamento e as pessoas que representa estão ansiosas para saber como a Europa pode avançar, com ideias novas e ousadas”, concluiu, antes de passar a palavra à presidente da Comissão Europeia.

Realizado anualmente perante o Parlamento Europeu, o discurso sobre o Estado da União da presidente da Comissão Europeia visa estabelecer prioridades para a União no ano seguinte e anunciar novas iniciativas, após uma reflexão sobre o ano que passou.

[Notícia atualizada às 10h36 de 10 de setembro de 2025 com mais declarações de Ursula von der Leyen]

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